São Paulo - 04.12.2007
A especialidade do cirurgião cardíaco turco e cidadão americano Mehmet Oz, de 47 anos, é retardar ao máximo os efeitos da idade em seus pacientes. Diretor do Programa de Medicina Integrada da Universidade Colúmbia, em Nova York, ele é consultor da famosa clínica antienvelhecimento do médico Michael Roizen, criador do conceito de que é possível manter o organismo mais jovem do que aponta a idade cronológica. Oz e Roizen também assinam a quatro mãos uma série de livros desucesso que ensinam como manter um estilo de vida que adia a velhice. O mais recente deles, You Staying Young (Você Sempre Jovem), lançado há um mês nos Estados Unidos, já vendeu meio milhão de exemplares.
Nos últimos quatro anos, Oz se tornou uma celebridade ao participar de um quadro fixo no programa de TV da apresentadora Oprah Winfrey. Ele também apresenta documentários no Discovery Channel. Nos dois casos,
dá dicas aos telespectadores sobre como viver mais com boa saúde. Esse é justamente o tema da entrevista que ele deu a VEJA.
BREVE BIOGRAFIA DO DR.OZ
Dr. Mehmet Oz nasceu em Cleveland, Ohio (EUA), dos pais turcos. Ele é
csado e pai de quatro filhos. Ele se formou da Harvard Univesity em 1982, depois fez mestrado e MBA na Universidade de Pennsylvania.
Ele é autor de mais de 350 publicações e vários livros. Em maio de 2005 estava na lista de New York Times Bestseller. Alguns livros e publicações dele junto com o colega Michael F. Roizen são:
ENTREVISTA DA VEJA
Veja
- Existe uma fórmula para se manter jovem por mais tempo?
Oz
- Sim. Há catorze agentes principais envolvidos no envelhecimento. Sete retardam o processo, como os antioxidantes, e sete nos enfraquecem, como a atrofia muscular. É preciso manter esses agentes sob controle. O primeiro passo para alcançar esse objetivo é pensar não na possibilidade de ficar doente, mas na necessidade de manter o organismo saudável. Deve-se tirar o foco da prevenção dos males e direcioná-lo para a preservação da saúde. Se ninguém mais morresse de câncer e de doenças cardiovasculares, a expectativa de vida média do ser humano subiria apenas nove anos. Isso mostra que, para aumentar consideravelmente a expectativa de vida, não basta evitar doenças. É preciso cuidar do corpo para que ele não enfraqueça. Quando uma pessoa envelhece, doenças potencialmente fatais, como o câncer e o infarto, não aparecem de imediato. Antes que elas se instalem, o corpo torna-se mais frágil e vulnerável.
Veja
- O que fazer para evitar que o corpo se torne frágil e vulnerável?
Oz
- Meu novo livro, You Staying Young (Você Sempre Jovem, ainda sem previsão de lançamento no Brasil), trata exatamente desse tema. Os exercícios físicos são uma ferramenta essencial. Eles combatem o primeiro sinal do envelhecimento, que é a perda de força muscular. Outros recursos importantes são alimentar-se bem e meditar. Uma boa recomendação é a prática do tai chi chuan, exercício oriental que combina equilíbrio, coordenação motora e também meditação.
Se todos adotassem essas medidas, a vida média da população poderia subir para 110 anos. Quanto à alimentação, não podem faltar nutrientes como o resveratrol da uva e o licopeno do tomate, que são poderosos antioxidantes. O principal, mas também o mais difícil, é controlar a quantidade dos alimentos. De qualquer forma, todo mundo deve comer um pouco menos do que tem vontade.
Veja
- Fazer várias pequenas refeições por dia, como recomendam alguns médicos, faz bem para a saúde?
Oz
- Deve-se comer de três em três horas. Se o intervalo é maior, a taxa de hormônio grelina, que estimula a fome, começa a subir. O problema é que, após uma refeição, ainda demora trinta minutos para que a taxa desse hormônio volte a baixar. Em conseqüência disso, acaba-se comendo mais do que se deveria. O mais importante, além de comer alguma coisa a cada três horas, é trocar as refeições grandes por pequenas,
intercaladas por lanchinhos. Esse conceito não foi criado por mim. É o que mostram as pesquisas científicas.
Veja
- O que o senhor considera refeições grandes e pequenas?
Oz
- Uma refeição grande ultrapassa 1 000 calorias. Uma pequena tem no máximo, 500. Quem consome por volta de 2 000 calorias diárias pode fazer duas refeições de 300 calorias cada uma e outra maior, de até 800. Os lanchinhos podem ter até 250 calorias.
Veja - O que deve ficar de fora do cardápio?
Oz
- Existe uma regrinha fácil de ser usada, a regra dos cinco. Para isso, é preciso examinar o rótulo dos alimentos. Cinco ingredientes não podem estar entre os primeiros listados no rótulo. São eles: gorduras saturadas, gorduras trans, açúcar simples, açúcar invertido e farinha de trigo enriquecida. Dois desses nutrientes são gorduras, dois são açúcares. Os dois tipos de gordura podem estimular processos inflamatórios no fígado que forçam a produção de substâncias deletérias, como o colesterol. Também fazem com que o fígado fique menos sensível à insulina, aumentando o risco de diabetes. Os açúcares listados fazem mal por estimular a produção de insulina, o que aumenta o depósito de gordura corporal. O pior é que esses cinco itens são os mais comuns nas dietas atuais.
Veja
- O cardápio básico do brasileiro, composto de arroz, feijão, carne e salada, é saudável?
Oz
- A princípio, sim. Esse cardápio contém exatamente os nutrientes para os quais a digestão humana está preparada. Mas os brasileiros comem carnes muito gordas, o que é errado... Antigamente, no mundo inteiro, quando os métodos de criação do gado eram mais simples, a porcentagem de gordura dos melhores cortes da carne bovina era, em média, de 4%. Hoje é de 30%. Outro problema dos hábitos alimentares do brasileiro é que ele come arroz em excesso, o que não traz nenhum benefício. Melhor seria adotar o arroz integral. Os alimentos integrais têm mais fibras, o que os mantém mais tempo no intestino e diminui a absorção de açúcar pelo organismo. Uma vantagem dos brasileiros é ter à disposição enorme variedade de frutas e vegetais maravilhosos, por preço razoável.
Veja
- Os hábitos que o senhor propõe para prolongar a vida são relativamente simples, mas exigem controle estrito sobre as atividades do dia-a-dia. Como exercer esse controle?
Oz
- A palavra-chave é automatizar. Ou seja, fazer desses hábitos uma rotina, sem precisar pensar muito neles. Acordar, escovar os dentes e passar o fio dental, para reduzir a quantidade de bactérias prejudiciais à saúde. Beber muito líquido ao longo do dia, principalmente água e chá verde. Dormir ao menos sete horas por noite. Durante o sono se produz o hormônio do crescimento, essencial mesmo para quem já é adulto, pois prolonga a juventude. Caminhar meia hora por dia e praticar exercícios que façam suar três vezes por semana. Meditar cinco minutos diariamente, o que pode estar embutido na prática de ioga ou tai chi chuan. Evitar alimentos que estejam na regra dos cinco, que mencionei anteriormente. Uma última coisa: estreitar o relacionamento com as pessoas próximas e abster-se de julgá-las. Em vez de julgar os outros, é melhor tomar conta de si próprio.
Veja
- Abster-se de julgar os outros ajuda a manter a juventude?
Oz
- Sim, da mesma forma que resolver situações de conflito. O conflito não traz nada de positivo. É apenas desgastante. Costumo recomendar a meus pacientes que procurem as pessoas com quem mantêm uma relação de animosidade e tentem resolver o impasse. Essa é uma atitude para o bem-estar próprio. Não há nada de altruísta nela. É uma atitude egoísta.
Veja
- O que o senhor acha das dietas para emagrecer que surgem e viram
moda a cada seis meses?
Oz
- Essas dietas fazem sucesso, mas são péssimas para a saúde. A alimentação não deve ser encarada como uma maratona para a perda de peso. Uma dieta que tenha como chamariz o emagrecimento rápido não é confiável. Comer menos do que o corpo necessita é uma agressão à fisiologia. Ou seja, aos processos químicos que fazem o organismo funcionar. Quando a fisiologia é desprezada, os resultados das dietas são transitórios.
Veja
- Por que o senhor recomenda cuidados com o jantar?
Oz
- Na verdade, há uma única regra a observar: deve-se jantar pelo menos três horas antes de dormir. Deitar logo após a refeição facilita o acúmulo de gordura, principalmente na cintura. Além disso, comer muito tarde prejudica o sono.
Veja
- O senhor recomenda beber muita água durante o dia. Quanto se deve beber exatamente?
Oz
- Deve-se beber uma quantidade suficiente para que a urina esteja sempre clara. Isso varia de um dia para o outro. Em dias quentes, sua-se muito e, por isso, é preciso beber mais água. Para quem não abre mão da cafeína, sugiro chá verde. Em lugar de quatro cafezinhos por dia, beba quatro copos de chá verde. Essa bebida concentra muitos antioxidantes e nutrientes bons para a saúde.
Veja
- Muitos ambientalistas condenam o consumo de água engarrafada.
Do ponto de vista da saúde, ela é melhor que a água da torneira?
Oz
- Eu acho um erro beber água engarrafada. Há dois problemas principais com ela. O primeiro é que, se a garrafa plástica não for reciclada, pode contaminar os mares e os rios. Isso prejudica o meio ambiente e, indiretamente, a saúde. O plástico das embalagens vai parar nos peixes que comemos. O resultado é que 97% das pessoas apresentam resíduos de plástico no organismo, o que interfere no sistema hormonal. Esses resíduos estimulam os receptores de estrogênio, o hormônio feminino. Em excesso, o estrogênio pode causar câncer e outros problemas. As toxinas contidas no plástico também aceleram o envelhecimento. O segundo problema é que, como a água engarrafada não apresenta vantagens com relação à água da torneira, trata-se de um desperdício de dinheiro.
Veja
- O senhor recomenda exercícios físicos que provoquem suor. Exercícios leves são inúteis?
Oz
- Essas recomendações visam à saúde cardiovascular. Para essa finalidade, apenas os exercícios moderados ou intensos, que fazem suar, apresentam benefícios. Mas os exercícios suaves e de baixo impacto têm valor. Mesmo a caminhada movimenta grandes músculos, como os das coxas e dos quadris, que consomem muita energia. Como o gasto
calórico muscular é maior durante o exercício, a queima de calorias aumenta.
Veja
- Os suplementos vitamínicos são criticados em muitos estudos
científicos. O que o senhor acha deles?
Oz
- Eles são eficazes, mas prometem mais do que cumprem. Na verdade, os médicos saem da faculdade sem conhecimentos suficientes sobre os suplementos e são forçados a tirar suas próprias conclusões. De modo geral, uma suplementação só é necessária quando as vitaminas não são obtidas naturalmente com a alimentação. Por outro lado, acredito que determinadas vitaminas podem melhorar a qualidade de vida e a longevidade. Entre elas estão as vitaminas A, B, C, D e E, além de cálcio, magnésio, selênio e zinco. A vitamina D é importantíssima, pois previne câncer e osteoporose. Principalmente nos países mais frios, onde a exposição solar é restrita, os suplementos são essenciais.
Veja
- Além dos procedimentos já descritos nesta entrevista, o que mais o
senhor faz para adiar o envelhecimento?
Oz
- Minha receita principal de juventude é brincar com meus filhos. Também procuro descobrir coisas novas todos os dias. Aprendo ao conversar com os outros e, apesar de ser muito assediado para responder a perguntas, por causa de minha atuação na TV, prefiro perguntar, saber como é a vida das pessoas, como elas trabalham. Isso faz minha mente exercitar-se.
Veja
- Nos últimos anos, o aperfeiçoamento do tratamento clínico fez cair o número de cirurgias cardíacas. Essa é uma tendência em outras especialidades médicas além da cardiologia?
Oz
- Sem dúvida. Os recursos clínicos tornaram-se mais eficazes tanto para a prevenção de doenças quanto para seu tratamento. Por isso, assim como na cardiologia, a cirurgia deixou de ser a primeira opção em outras áreas. Há poucos anos, quando o paciente machucava o joelho, ia direto para a sala de operação. Agora, ele vai para a sala de fisioterapia. Essa tendência também é evidente nos casos de diverticulite, uma inflamação do intestino, que passou a ser tratada com o consumo de fibras. O mesmo acontece com pacientes que apresentam doença arterial obstrutiva periférica. Antes eles iam para a faca. Agora, recebem como orientação deixar de fumar e caminhar. Mesmo que sintam dor num primeiro momento, essa é uma maneira de estimular o crescimento de novos vasos sanguíneos para substituir os danificados..
Veja
- O senhor já esteve no Brasil. Como foi sua experiência no país?
Oz
- Visitei o Brasil há muitos anos, quando ainda era estudante de medicina. Fui ao Rio de Janeiro e conheci o doutor Ivo Pitanguy. Também fiquei deslumbrado com as frutas brasileiras e com as lojas de sucos. Elas misturam frutas e outros vegetais, uma combinação pouco convencional. Conheci o açaí, que até hoje está no meu cardápio. Compro açaí em Nova York mesmo. É um dos alimentos com maior concentração de antioxidantes. Planejo voltar ao Brasil em meados do ano que vem para
gravar um programa. Quero muito ir à Amazônia e conhecer as plantas medicinais da região.
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6 de julho de 2010
ENTREVISTA DA VEJA COM O CIRURGIÃO CARDÍACO TURCO e CIDADÃO AMERICANO DR. MEHMET OZ.
- São Paulo - 04.12.2007
A especialidade do cirurgião cardíaco turco e cidadão americano Mehmet Oz, de 47 anos, é retardar ao máximo os efeitos da idade em seus pacientes. Diretor do Programa de Medicina Integrada da Universidade Colúmbia, em Nova York, ele é consultor da famosa clínica antienvelhecimento do médico Michael Roizen, criador do conceito de que é possível manter o organismo mais jovem do que aponta a idade cronológica. Oz e Roizen também assinam a quatro mãos uma série de livros desucesso que ensinam como manter um estilo de vida que adia a velhice. O mais recente deles, You Staying Young (Você Sempre Jovem), lançado há um mês nos Estados Unidos, já vendeu meio milhão de exemplares.
Nos últimos quatro anos, Oz se tornou uma celebridade ao participar de um quadro fixo no programa de TV da apresentadora Oprah Winfrey. Ele também apresenta documentários no Discovery Channel. Nos dois casos,
dá dicas aos telespectadores sobre como viver mais com boa saúde. Esse é justamente o tema da entrevista que ele deu a VEJA.
BREVE BIOGRAFIA DO DR.OZ
Dr. Mehmet Oz nasceu em Cleveland, Ohio (EUA), dos pais turcos. Ele é
csado e pai de quatro filhos. Ele se formou da Harvard Univesity em 1982, depois fez mestrado e MBA na Universidade de Pennsylvania.
Ele é autor de mais de 350 publicações e vários livros. Em maio de 2005 estava na lista de New York Times Bestseller. Alguns livros e publicações dele junto com o colega Michael F. Roizen são:
ENTREVISTA DA VEJA
Veja
- Existe uma fórmula para se manter jovem por mais tempo?
Oz
- Sim.
Há catorze agentes principais envolvidos no envelhecimento. Sete
retardam o processo, como os antioxidantes, e sete nos enfraquecem, como a atrofia muscular. É preciso manter esses agentes sob controle. O primeiro passo para alcançar esse objetivo é pensar não na possibilidade
de ficar doente, mas na necessidade de manter o organismo saudável. Deve-se tirar o foco da prevenção dos males e direcioná-lo para a preservação da saúde.
Se ninguém mais morresse de câncer e de doenças cardiovasculares, a expectativa de vida média do ser humano subiria apenas nove anos. Isso mostra que, para aumentar consideravelmente a expectativa de vida, não basta evitar doenças. É preciso cuidar do corpo para que ele não enfraqueça. Quando uma pessoa envelhece, doenças potencialmente fatais, como o câncer e o infarto, não aparecem de imediato. Antes que elas se instalem, o corpo torna-se mais frágil e vulnerável.
Veja
- O que fazer para evitar que o corpo se torne frágil e vulnerável?
Oz
- Meu novo livro, You Staying Young (Você Sempre Jovem, ainda sem
previsão de lançamento no Brasil), trata exatamente desse tema..
Os exercícios físicos são uma ferramenta essencial. Eles combatem o primeiro sinal do envelhecimento, que é a perda de força muscular. Outros recursos importantes são alimentar-se bem e meditar. Uma boa recomendação é a prática do tai chi chuan, exercício oriental que combina equilíbrio, coordenação motora e também meditação.
Se todos adotassem essas medidas, a vida média da população poderia subir para 110 anos. Quanto à alimentação, não podem faltar nutrientes como o resveratrol da uva e o licopeno do tomate, que são poderosos
antioxidantes. O principal, mas também o mais difícil, é controlar a quantidade dos alimentos. De qualquer forma, todo mundo deve comer um
pouco menos do que tem vontade.
Veja
- Fazer várias pequenas refeições por dia, como recomendam alguns médicos, faz bem para a saúde?
Oz
- Deve-se comer de três em três horas. Se o intervalo é maior, a taxa de hormônio grelina, que estimula a fome, começa a subir. O problema é que, após uma refeição, ainda demora trinta minutos para que a taxa desse hormônio volte a baixar. Em conseqüência disso, acaba-se comendo mais do que se deveria. O mais importante, além de comer alguma coisa a cada três horas, é trocar as refeições grandes por pequenas,
intercaladas por lanchinhos. Esse conceito não foi criado por mim. É o que mostram as pesquisas científicas.
Veja
- O que o senhor considera refeições grandes e pequenas?
Oz
- Uma refeição grande ultrapassa 1 000 calorias. Uma pequena tem,
no máximo, 500. Quem consome por volta de 2 000 calorias diárias pode fazer duas refeições de 300 calorias cada uma e outra maior, de até 800. Os lanchinhos podem ter até 250 calorias.
Veja - O que deve ficar de fora do cardápio?
Oz
- Existe uma regrinha fácil de ser usada, a regra dos cinco. Para isso, é
preciso examinar o rótulo dos alimentos. Cinco ingredientes não podem estar entre os primeiros listados no rótulo.
São eles: gorduras saturadas, gorduras trans, açúcar simples, açúcar invertido e farinha de trigo enriquecida. Dois desses nutrientes são gorduras, dois são açúcares. Os dois tipos de gordura podem estimular processos inflamatórios no fígado que forçam a produção de substâncias
deletérias, como o colesterol. Também fazem com que o fígado fique menos sensível à insulina, aumentando o risco de diabetes. Os açúcares listados fazem mal por estimular a produção de insulina, o que aumenta o depósito de gordura corporal. O pior é que esses cinco itens são os mais comuns nas dietas atuais.
Veja
- O cardápio básico do brasileiro, composto de arroz, feijão, carne e salada, é saudável?
Oz
- A princípio, sim. Esse cardápio contém exatamente os nutrientes para os quais a digestão humana está preparada. Mas os brasileiros comem carnes muito gordas, o que é errado... Antigamente, no mundo inteiro, quando os métodos de criação do gado eram mais simples, a porcentagem de gordura dos melhores cortes da carne bovina era, em média, de 4%. Hoje é de 30%. Outro problema dos hábitos alimentares do brasileiro é que ele come arroz em excesso, o que não traz nenhum benefício. Melhor seria adotar o arroz integral. Os alimentos integrais têm mais fibras, o que os mantém mais tempo no intestino e diminui a absorção de açúcar pelo organismo. Uma vantagem dos brasileiros é ter à disposição enorme variedade de frutas e vegetais maravilhosos, por preço razoável.
Veja
- Os hábitos que o senhor propõe para prolongar a vida são relativamente simples, mas exigem controle estrito sobre as atividades do dia-a-dia. Como exercer esse controle?
Oz
- A palavra-chave é automatizar. Ou seja, fazer desses hábitos uma rotina, sem precisar pensar muito neles. Acordar, escovar os dentes e passar o fio dental, para reduzir a quantidade de bactérias prejudiciais à saúde. Beber muito líquido ao longo do dia, principalmente água e chá verde. Dormir ao menos sete horas por noite. Durante o sono se produz o
hormônio do crescimento, essencial mesmo para quem já é adulto, pois prolonga a juventude. Caminhar meia hora por dia e praticar exercícios que façam suar três vezes por semana. Meditar cinco minutos diariamente, o que pode estar embutido na prática de ioga ou tai chi chuan. Evitar alimentos que estejam na regra dos cinco, que mencionei anteriormente. Uma última coisa: estreitar o relacionamento com as pessoas próximas e abster-se de julgá-las. Em vez de julgar os outros, é melhor tomar conta de si próprio.
Veja
- Abster-se de julgar os outros ajuda a manter a juventude?
Oz
- Sim, da mesma forma que resolver situações de conflito. O conflito não traz nada de positivo. É apenas desgastante. Costumo recomendar a meus pacientes que procurem as pessoas com quem mantêm uma relação de animosidade e tentem resolver o impasse. Essa é uma atitude para o bem-estar próprio. Não há nada de altruísta nela. É uma atitude egoísta.
Veja
- O que o senhor acha das dietas para emagrecer que surgem e viram
moda a cada seis meses?
Oz
- Essas dietas fazem sucesso, mas são péssimas para a saúde.
A alimentação não deve ser encarada como uma maratona para a perda de peso. Uma dieta que tenha como chamariz o emagrecimento rápido não é confiável. Comer menos do que o corpo necessita é uma agressão à fisiologia. Ou seja, aos processos químicos que fazem o organismo funcionar. Quando a fisiologia é desprezada, os resultados das dietas são transitórios.
Veja
- Por que o senhor recomenda cuidados com o jantar?
Oz
- Na verdade, há uma única regra a observar: deve-se jantar pelo menos três horas antes de dormir. Deitar logo após a refeição facilita o acúmulo de gordura, principalmente na cintura. Além disso, comer muito tarde prejudica o sono.
Veja
- O senhor recomenda beber muita água durante o dia. Quanto se deve
beber exatamente?
Oz
- Deve-se beber uma quantidade suficiente para que a urina esteja sempre clara. Isso varia de um dia para o outro. Em dias quentes, sua-se muito e, por isso, é preciso beber mais água. Para quem não abre mão da cafeína, sugiro chá verde. Em lugar de quatro cafezinhos por dia, beba quatro copos de chá verde. Essa bebida concentra muitos antioxidantes e nutrientes bons para a saúde.
Veja
- Muitos ambientalistas condenam o consumo de água engarrafada.
Do ponto de vista da saúde, ela é melhor que a água da torneira?
Oz
- Eu acho um erro beber água engarrafada. Há dois problemas principais com ela. O primeiro é que, se a garrafa plástica não for reciclada, pode contaminar os mares e os rios. Isso prejudica o meio ambiente e, indiretamente, a saúde.. O plástico das embalagens vai parar nos peixes que comemos. O resultado é que 97% das pessoas apresentam resíduos de plástico no organismo, o que interfere no sistema hormonal. Esses > resíduos estimulam os receptores de estrogênio, o hormônio feminino. Em excesso, o estrogênio pode causar câncer e outros problemas. As toxinas contidas no plástico também aceleram o envelhecimento. O segundo problema é que, como a água engarrafada não apresenta vantagens com relação à água da torneira, trata-se de um desperdício de dinheiro..
Veja
- O senhor recomenda exercícios físicos que provoquem suor.
Exercícios leves são inúteis?
Oz
- Essas recomendações visam à saúde cardiovascular. Para essa
finalidade, apenas os exercícios moderados ou intensos, que fazem suar, apresentam benefícios. Mas os exercícios suaves e de baixo impacto têm valor. Mesmo a caminhada movimenta grandes músculos, como os das coxas e dos quadris, que consomem muita energia. Como o gasto
calórico muscular é maior durante o exercício, a queima de calorias aumenta.
Veja
- Os suplementos vitamínicos são criticados em muitos estudos
científicos. O que o senhor acha deles?
Oz
- Eles são eficazes, mas prometem mais do que cumprem. Na verdade, os médicos saem da faculdade sem conhecimentos suficientes sobre os suplementos e são forçados a tirar suas próprias conclusões. De modo geral, uma suplementação só é necessária quando as vitaminas não
são obtidas naturalmente com a alimentação.
Por outro lado, acredito que determinadas vitaminas podem melhorar a qualidade de vida e a longevidade. Entre elas estão as vitaminas A, B, C, D e E, além de cálcio, magnésio, selênio e zinco. A vitamina D é importantíssima, pois previne câncer e osteoporose. Principalmente
nos países mais frios, onde a exposição solar é restrita, os suplementos são essenciais.
Veja
- Além dos procedimentos já descritos nesta entrevista, o que mais o
senhor faz para adiar o envelhecimento?
Oz
- Minha receita principal de juventude é brincar com meus filhos. Também procuro descobrir coisas novas todos os dias. Aprendo ao conversar
com os outros e, apesar de ser muito assediado para responder a perguntas, por causa de minha atuação na TV, prefiro perguntar, saber como é a vida das pessoas, como elas trabalham. Isso faz minha mente
exercitar-se.
Veja
- Nos últimos anos, o aperfeiçoamento do tratamento clínico fez cair o número de cirurgias cardíacas. Essa é uma tendência em outras especialidades médicas além da cardiologia?
Oz
- Sem dúvida. Os recursos clínicos tornaram-se mais eficazes tanto para a prevenção de doenças quanto para seu tratamento. Por isso, assim como na cardiologia, a cirurgia deixou de ser a primeira opção em outras áreas. Há poucos anos, quando o paciente machucava o joelho, ia direto para a sala de operação. Agora, ele vai para a sala de fisioterapia.
Essa tendência também é evidente nos casos de diverticulite, uma
inflamação do intestino, que passou a ser tratada com o consumo de fibras. O mesmo acontece com pacientes que apresentam doença arterial obstrutiva periférica. Antes eles iam para a faca. Agora, recebem como
orientação deixar de fumar e caminhar. Mesmo que sintam dor num primeiro momento, essa é uma maneira de estimular o crescimento de novos vasos sanguíneos para substituir os danificados..
Veja
- O senhor já esteve no Brasil. Como foi sua experiência no país?
Oz
- Visitei o Brasil há muitos anos, quando ainda era estudante de
medicina. Fui ao Rio de Janeiro e conheci o doutor Ivo Pitanguy. Também
fiquei deslumbrado com as frutas brasileiras e com as lojas de sucos. Elas misturam frutas e outros vegetais, uma combinação pouco convencional. Conheci o açaí, que até hoje está no meu cardápio. Compro açaí em Nova
York mesmo. É um dos alimentos com maior concentração de antioxidantes. Planejo voltar ao Brasil em meados do ano que vem para
gravar um programa. Quero muito ir à Amazônia e conhecer as plantas medicinais da região.
A especialidade do cirurgião cardíaco turco e cidadão americano Mehmet Oz, de 47 anos, é retardar ao máximo os efeitos da idade em seus pacientes. Diretor do Programa de Medicina Integrada da Universidade Colúmbia, em Nova York, ele é consultor da famosa clínica antienvelhecimento do médico Michael Roizen, criador do conceito de que é possível manter o organismo mais jovem do que aponta a idade cronológica. Oz e Roizen também assinam a quatro mãos uma série de livros desucesso que ensinam como manter um estilo de vida que adia a velhice. O mais recente deles, You Staying Young (Você Sempre Jovem), lançado há um mês nos Estados Unidos, já vendeu meio milhão de exemplares.
Nos últimos quatro anos, Oz se tornou uma celebridade ao participar de um quadro fixo no programa de TV da apresentadora Oprah Winfrey. Ele também apresenta documentários no Discovery Channel. Nos dois casos,
dá dicas aos telespectadores sobre como viver mais com boa saúde. Esse é justamente o tema da entrevista que ele deu a VEJA.
BREVE BIOGRAFIA DO DR.OZ
Dr. Mehmet Oz nasceu em Cleveland, Ohio (EUA), dos pais turcos. Ele é
csado e pai de quatro filhos. Ele se formou da Harvard Univesity em 1982, depois fez mestrado e MBA na Universidade de Pennsylvania.
Ele é autor de mais de 350 publicações e vários livros. Em maio de 2005 estava na lista de New York Times Bestseller. Alguns livros e publicações dele junto com o colega Michael F. Roizen são:
ENTREVISTA DA VEJA
Veja
- Existe uma fórmula para se manter jovem por mais tempo?
Oz
- Sim.
Há catorze agentes principais envolvidos no envelhecimento. Sete
retardam o processo, como os antioxidantes, e sete nos enfraquecem, como a atrofia muscular. É preciso manter esses agentes sob controle. O primeiro passo para alcançar esse objetivo é pensar não na possibilidade
de ficar doente, mas na necessidade de manter o organismo saudável. Deve-se tirar o foco da prevenção dos males e direcioná-lo para a preservação da saúde.
Se ninguém mais morresse de câncer e de doenças cardiovasculares, a expectativa de vida média do ser humano subiria apenas nove anos. Isso mostra que, para aumentar consideravelmente a expectativa de vida, não basta evitar doenças. É preciso cuidar do corpo para que ele não enfraqueça. Quando uma pessoa envelhece, doenças potencialmente fatais, como o câncer e o infarto, não aparecem de imediato. Antes que elas se instalem, o corpo torna-se mais frágil e vulnerável.
Veja
- O que fazer para evitar que o corpo se torne frágil e vulnerável?
Oz
- Meu novo livro, You Staying Young (Você Sempre Jovem, ainda sem
previsão de lançamento no Brasil), trata exatamente desse tema..
Os exercícios físicos são uma ferramenta essencial. Eles combatem o primeiro sinal do envelhecimento, que é a perda de força muscular. Outros recursos importantes são alimentar-se bem e meditar. Uma boa recomendação é a prática do tai chi chuan, exercício oriental que combina equilíbrio, coordenação motora e também meditação.
Se todos adotassem essas medidas, a vida média da população poderia subir para 110 anos. Quanto à alimentação, não podem faltar nutrientes como o resveratrol da uva e o licopeno do tomate, que são poderosos
antioxidantes. O principal, mas também o mais difícil, é controlar a quantidade dos alimentos. De qualquer forma, todo mundo deve comer um
pouco menos do que tem vontade.
Veja
- Fazer várias pequenas refeições por dia, como recomendam alguns médicos, faz bem para a saúde?
Oz
- Deve-se comer de três em três horas. Se o intervalo é maior, a taxa de hormônio grelina, que estimula a fome, começa a subir. O problema é que, após uma refeição, ainda demora trinta minutos para que a taxa desse hormônio volte a baixar. Em conseqüência disso, acaba-se comendo mais do que se deveria. O mais importante, além de comer alguma coisa a cada três horas, é trocar as refeições grandes por pequenas,
intercaladas por lanchinhos. Esse conceito não foi criado por mim. É o que mostram as pesquisas científicas.
Veja
- O que o senhor considera refeições grandes e pequenas?
Oz
- Uma refeição grande ultrapassa 1 000 calorias. Uma pequena tem,
no máximo, 500. Quem consome por volta de 2 000 calorias diárias pode fazer duas refeições de 300 calorias cada uma e outra maior, de até 800. Os lanchinhos podem ter até 250 calorias.
Veja - O que deve ficar de fora do cardápio?
Oz
- Existe uma regrinha fácil de ser usada, a regra dos cinco. Para isso, é
preciso examinar o rótulo dos alimentos. Cinco ingredientes não podem estar entre os primeiros listados no rótulo.
São eles: gorduras saturadas, gorduras trans, açúcar simples, açúcar invertido e farinha de trigo enriquecida. Dois desses nutrientes são gorduras, dois são açúcares. Os dois tipos de gordura podem estimular processos inflamatórios no fígado que forçam a produção de substâncias
deletérias, como o colesterol. Também fazem com que o fígado fique menos sensível à insulina, aumentando o risco de diabetes. Os açúcares listados fazem mal por estimular a produção de insulina, o que aumenta o depósito de gordura corporal. O pior é que esses cinco itens são os mais comuns nas dietas atuais.
Veja
- O cardápio básico do brasileiro, composto de arroz, feijão, carne e salada, é saudável?
Oz
- A princípio, sim. Esse cardápio contém exatamente os nutrientes para os quais a digestão humana está preparada. Mas os brasileiros comem carnes muito gordas, o que é errado... Antigamente, no mundo inteiro, quando os métodos de criação do gado eram mais simples, a porcentagem de gordura dos melhores cortes da carne bovina era, em média, de 4%. Hoje é de 30%. Outro problema dos hábitos alimentares do brasileiro é que ele come arroz em excesso, o que não traz nenhum benefício. Melhor seria adotar o arroz integral. Os alimentos integrais têm mais fibras, o que os mantém mais tempo no intestino e diminui a absorção de açúcar pelo organismo. Uma vantagem dos brasileiros é ter à disposição enorme variedade de frutas e vegetais maravilhosos, por preço razoável.
Veja
- Os hábitos que o senhor propõe para prolongar a vida são relativamente simples, mas exigem controle estrito sobre as atividades do dia-a-dia. Como exercer esse controle?
Oz
- A palavra-chave é automatizar. Ou seja, fazer desses hábitos uma rotina, sem precisar pensar muito neles. Acordar, escovar os dentes e passar o fio dental, para reduzir a quantidade de bactérias prejudiciais à saúde. Beber muito líquido ao longo do dia, principalmente água e chá verde. Dormir ao menos sete horas por noite. Durante o sono se produz o
hormônio do crescimento, essencial mesmo para quem já é adulto, pois prolonga a juventude. Caminhar meia hora por dia e praticar exercícios que façam suar três vezes por semana. Meditar cinco minutos diariamente, o que pode estar embutido na prática de ioga ou tai chi chuan. Evitar alimentos que estejam na regra dos cinco, que mencionei anteriormente. Uma última coisa: estreitar o relacionamento com as pessoas próximas e abster-se de julgá-las. Em vez de julgar os outros, é melhor tomar conta de si próprio.
Veja
- Abster-se de julgar os outros ajuda a manter a juventude?
Oz
- Sim, da mesma forma que resolver situações de conflito. O conflito não traz nada de positivo. É apenas desgastante. Costumo recomendar a meus pacientes que procurem as pessoas com quem mantêm uma relação de animosidade e tentem resolver o impasse. Essa é uma atitude para o bem-estar próprio. Não há nada de altruísta nela. É uma atitude egoísta.
Veja
- O que o senhor acha das dietas para emagrecer que surgem e viram
moda a cada seis meses?
Oz
- Essas dietas fazem sucesso, mas são péssimas para a saúde.
A alimentação não deve ser encarada como uma maratona para a perda de peso. Uma dieta que tenha como chamariz o emagrecimento rápido não é confiável. Comer menos do que o corpo necessita é uma agressão à fisiologia. Ou seja, aos processos químicos que fazem o organismo funcionar. Quando a fisiologia é desprezada, os resultados das dietas são transitórios.
Veja
- Por que o senhor recomenda cuidados com o jantar?
Oz
- Na verdade, há uma única regra a observar: deve-se jantar pelo menos três horas antes de dormir. Deitar logo após a refeição facilita o acúmulo de gordura, principalmente na cintura. Além disso, comer muito tarde prejudica o sono.
Veja
- O senhor recomenda beber muita água durante o dia. Quanto se deve
beber exatamente?
Oz
- Deve-se beber uma quantidade suficiente para que a urina esteja sempre clara. Isso varia de um dia para o outro. Em dias quentes, sua-se muito e, por isso, é preciso beber mais água. Para quem não abre mão da cafeína, sugiro chá verde. Em lugar de quatro cafezinhos por dia, beba quatro copos de chá verde. Essa bebida concentra muitos antioxidantes e nutrientes bons para a saúde.
Veja
- Muitos ambientalistas condenam o consumo de água engarrafada.
Do ponto de vista da saúde, ela é melhor que a água da torneira?
Oz
- Eu acho um erro beber água engarrafada. Há dois problemas principais com ela. O primeiro é que, se a garrafa plástica não for reciclada, pode contaminar os mares e os rios. Isso prejudica o meio ambiente e, indiretamente, a saúde.. O plástico das embalagens vai parar nos peixes que comemos. O resultado é que 97% das pessoas apresentam resíduos de plástico no organismo, o que interfere no sistema hormonal. Esses > resíduos estimulam os receptores de estrogênio, o hormônio feminino. Em excesso, o estrogênio pode causar câncer e outros problemas. As toxinas contidas no plástico também aceleram o envelhecimento. O segundo problema é que, como a água engarrafada não apresenta vantagens com relação à água da torneira, trata-se de um desperdício de dinheiro..
Veja
- O senhor recomenda exercícios físicos que provoquem suor.
Exercícios leves são inúteis?
Oz
- Essas recomendações visam à saúde cardiovascular. Para essa
finalidade, apenas os exercícios moderados ou intensos, que fazem suar, apresentam benefícios. Mas os exercícios suaves e de baixo impacto têm valor. Mesmo a caminhada movimenta grandes músculos, como os das coxas e dos quadris, que consomem muita energia. Como o gasto
calórico muscular é maior durante o exercício, a queima de calorias aumenta.
Veja
- Os suplementos vitamínicos são criticados em muitos estudos
científicos. O que o senhor acha deles?
Oz
- Eles são eficazes, mas prometem mais do que cumprem. Na verdade, os médicos saem da faculdade sem conhecimentos suficientes sobre os suplementos e são forçados a tirar suas próprias conclusões. De modo geral, uma suplementação só é necessária quando as vitaminas não
são obtidas naturalmente com a alimentação.
Por outro lado, acredito que determinadas vitaminas podem melhorar a qualidade de vida e a longevidade. Entre elas estão as vitaminas A, B, C, D e E, além de cálcio, magnésio, selênio e zinco. A vitamina D é importantíssima, pois previne câncer e osteoporose. Principalmente
nos países mais frios, onde a exposição solar é restrita, os suplementos são essenciais.
Veja
- Além dos procedimentos já descritos nesta entrevista, o que mais o
senhor faz para adiar o envelhecimento?
Oz
- Minha receita principal de juventude é brincar com meus filhos. Também procuro descobrir coisas novas todos os dias. Aprendo ao conversar
com os outros e, apesar de ser muito assediado para responder a perguntas, por causa de minha atuação na TV, prefiro perguntar, saber como é a vida das pessoas, como elas trabalham. Isso faz minha mente
exercitar-se.
Veja
- Nos últimos anos, o aperfeiçoamento do tratamento clínico fez cair o número de cirurgias cardíacas. Essa é uma tendência em outras especialidades médicas além da cardiologia?
Oz
- Sem dúvida. Os recursos clínicos tornaram-se mais eficazes tanto para a prevenção de doenças quanto para seu tratamento. Por isso, assim como na cardiologia, a cirurgia deixou de ser a primeira opção em outras áreas. Há poucos anos, quando o paciente machucava o joelho, ia direto para a sala de operação. Agora, ele vai para a sala de fisioterapia.
Essa tendência também é evidente nos casos de diverticulite, uma
inflamação do intestino, que passou a ser tratada com o consumo de fibras. O mesmo acontece com pacientes que apresentam doença arterial obstrutiva periférica. Antes eles iam para a faca. Agora, recebem como
orientação deixar de fumar e caminhar. Mesmo que sintam dor num primeiro momento, essa é uma maneira de estimular o crescimento de novos vasos sanguíneos para substituir os danificados..
Veja
- O senhor já esteve no Brasil. Como foi sua experiência no país?
Oz
- Visitei o Brasil há muitos anos, quando ainda era estudante de
medicina. Fui ao Rio de Janeiro e conheci o doutor Ivo Pitanguy. Também
fiquei deslumbrado com as frutas brasileiras e com as lojas de sucos. Elas misturam frutas e outros vegetais, uma combinação pouco convencional. Conheci o açaí, que até hoje está no meu cardápio. Compro açaí em Nova
York mesmo. É um dos alimentos com maior concentração de antioxidantes. Planejo voltar ao Brasil em meados do ano que vem para
gravar um programa. Quero muito ir à Amazônia e conhecer as plantas medicinais da região.
13 de junho de 2010
Especialista em terceira idade, Alexandre Kalache defende envelhecimento ativo
Publicada em 28/07/2008 às 15h05m
Antônio Marinho - O Globo
RIO - Em menos de 20 anos, o Brasil terá 18 milhões de idosos. Em 2025 serão 32 milhões. Apesar de a expectativa de vida ter aumentado, ainda há muito a fazer. Responsável durante 12 anos por programas de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS), o doutor em saúde pública Alexandre Kalache, fundador do Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da London School of Hygiene and Tropical Medicine e consultor sênior da Academia de Medicina de Nova York, diz o que pode ser feito para melhorar a qualidade de vida na terceira idade. Ele está no Brasil para participar do 13º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge) e defende o investimento em atenção primária e em práticas que levem ao que chama de "envelhecimento ativo".
O brasileiro está envelhecendo com melhor qualidade de vida?
KALACHE - Se compararmos com o envelhecimento do meu avô a diferença é enorme. Primeiro porque a expectativa de vida é mais alta. Quando nasci em 1945, em Copacabana, a esperança de vida de um brasileiro era de 43 anos. Hoje é de 73 anos, quase 74 anos. Só no meu tempo de vida ganhamos 30 anos. Isso é um recorde. Poucos países conseguiram este salto num período tão curto. Eu nasci numa maternidade (a Arnaldo de Moraes) que não existe mais. O mesmo prédio se tornou virtualmente um hospital geriátrico. Copacabana é um exemplo excelente do que está acontecendo e acontecerá no país. Hoje temos mais idosos proporcionalmente neste bairro do que na Suécia e no Japão. Isso tem muito a ver com a urbanização do bairro. Por um lado, os idosos que têm acesso ou dinheiro hoje contam com facilidades que antes não sonhavam, como serviços de saúde e avanços tecnológicos que no meu tempo de estudante de medicina, no final da década de 60, eram ficção científica, mesmo um marcapasso ou a cirurgia aberta de coração, ou um tratamento catarata. E ainda as drogas para controlar diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares; a evolução do tratamento de câncer. Tudo isso melhorou a qualidade de vida. Idosos que antes seriam incapacitados, hoje convivem com problemas crônicos. Porém, o envelhecimento no Brasil ainda é um reflexo do que acontece no país. Há muita desigualdade. Por exemplo, decidir fazer dieta saudável não depende apenas de acesso à informação, mas também de poder aquisitivo. Mesmo em Copacabana isso fica evidente. De um lado idosos em comunidades carentes e do outro idosos de classe média. O primeiro grupo está envelhecendo pior, sem acesso ao sistema de saúde e sem vida social.
O Brasil envelheceu antes de enriquecer. Até que ponto isso foi ruim?
KALACHE - Um aspecto positivo é a aposentadoria não contributiva, de grande interesse internacional, que está tirando da miséria mais de oito milhões de beneficiários e cerca de quatro vezes esse número quando somamos seus familiares. São mais de dois mil municípios que têm hoje suas economias gravitando em torno dessas pensões. E esta política é viável e economicamente possível e difundida. São pessoas que trabalharam a vida toda e não contribuíram para o seguro social, como donas de casa, trabalhadores rurais etc. Pela primeira vez contam com uma renda regular todo mês. Se o Brasil não tivesse nos anos mais recentes experimentado um desenvolvimento econômico, isso talvez ficasse insustentável. E isso pesa muito menos para a economia do que a pensão de funcionários públicos que geralmente se aposentam cedo e com valores mais altos.
Os profissionais de saúde estão preparados para lidar com a terceira idade?
KALACHE - São absolutamente despreparados para lidar com idosos. Não vamos conseguir oferecer serviço geriátrico para 18 milhões de idosos. Primeiro, não é a resposta, não queremos tornar o envelhecimento um problema médico. Mas precisamos treinar todos os profissionais de saúde para lidar melhor com essa população. Geralmente eles sabem tudo de criança, de gestante, mas não sabem nada sobre terceira idade. E é a maioria de seus pacientes. Eles saem das faculdades sem adquirir conhecimentos para lidar com os idosos. A grande resposta para o envelhecimento é a atenção primária na saúde, para evitar a hospitalização e a institucionalização, opções muito mais caras. É preciso atender nossos idosos onde eles vivem, com seu problemas. Trabalhamos com a Associação Internacional de Gerontologia e definimos os 15 pontos capitais para o currículo mínimo do médico. O que ele deve aprender hoje para responder ao envelhecimento. Em 2025, serão 32 milhões com mais de 60 anos no Brasil, em 2050, serão 70 milhões. O acidente vascular cerebral ou derrame é um desgraça no Brasil, que tem um dos maiores índices do mundo. E que poderia ser prevenido como medidas simples como redução do sal na dieta e prática de atividade física. Mas, por exemplo, o idoso que mora em comunidades mais carentes não tem uma calçada para caminhar. Por outro lado, quando a doença já ocorreu, ele precisa de um lugar adequado para se tratar. E depois do tratamento vai precisar de fisioterapia, acompanhamento. Muitas vezes se torna incapaz e ainda terá de viver 15 anos a 20 anos com esse problema, com má qualidade de vida. Todos os profissionais de saúde deveriam estar mais familiarizados com anatomia, fisiologia, farmacologia, sinais e sintomas de doença na terceira idade. Um infarto em pessoa mais jovem causa dor. Já num idoso isso nem sempre ocorre. Outra doença comum é a depressão, que muitas vezes é confundida com mal de Alzheimer e não é tratada.
O Brasil tem um excelente Estatuto do Idoso no papel, mas na prática ainda não funciona? O que pode ser feito?
KALACHE - Já melhorou muito. Há dez anos, falar de envelhecimento não estava na pauta da mídia. Quando me especializei, na década de 70, eu não conseguia falar com ninguém sobre o assunto. Para melhorar a aplicação do estatuto é preciso sensibilizar as autoridades, os políticos. Eles querem dar prioridade a ações mais imediatas, como inaugurar uma ponte. Os políticos e dirigentes ainda não se deram conta da urgência do tema. Porém, o envelhecimento é um desafio de hoje, temos que andar rapidamente. Por exemplo, estamos tentando criar o Centro Internacional de Envelhecimento no Brasil, mas há mais dificuldades do que havia previsto. O principal objetivo do centro seria estimular políticas sustentáveis para o envelhecimento ativo. É o processo de otimizar as oportunidades de saúde, participação e segurança para que o cidadão tenha melhor qualidade de vida à medida que envelhece. É um processo, é continuo. E essas oportunidades estão ao longo da vida. Na saúde, o que se faz hoje, na infância, na adolescência, terá repercussão importante aos 78 anos. A saúde é a chave para participar ativamente da sociedade. Outra questão é a segurança para viver bem na velhice. A proposta do centro é estimular o debate com profissionaisde todas as áreas, não apenas saúde, mas arquitetos, advogados etc, realizar pesquisas e elaborar políticas públicas que poderão trazer o Brasil para o mesmo grau de evolução de países da Europa e dos Estados Unidos. E ele não será vinculado a uma única instituição. A idéia é fazer parcerias com profissionais que se dedicam à essa área, como a Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati, Uerj), UFRJ e Universidade Cândido Mendes, e no exterior, como The New York Academy of Medicine, para citar alguns exemplos.
O que aconteceu com o programa Sociedade Amiga do Idoso, da Organização Mundial de Saúde (OMS), que teve como piloto o bairro de Copacabana e serve de modelo para outras cidades do mundo?
KALACHE - O programa está lento, mas existem intervenções pontuais. Copacabana serviu como piloto e foi aqui que desenvolvemos a metodologia adotada em 35 cidades para o projeto global cidade amiga do idoso. Isso é realidade e partiu daqui. Depois repetimos a pesquisa entrevistando idosos de Tóquio, Xangai, Londres, Melbourne, Nova York e outras cidades. Analisamos os relatórios e os dados foram usados para produzir um guia, lançado em 1º de outubro de 2007. E teve um grande impacto. Agora são centenas de cidades e nova reunião será realizada em setembro, em Montreal. Apesar de ter nascido em Copacabana, pouco foi feito aqui. O tema transporte é um dos mais importantes para esta população. No Brasil os ônibus brasileiros são feitos em chassi, com degraus altos. Em Nova York o sistema está sendo todo reformulado. Já existem ônibus nos quais o chassi inteiro desce, não apenas um degrau. O que é bom para o idoso é bom para todos. Eu entro mais facilmente com um embrulho, a mulher com bebê, a pessoa com necessidade, o gordo. Uma boa política de envelhecimento é uma boa política de transporte público. O idoso poderá socializar mais. Outra questão: o idoso gosta de caminhar, de andar, mas também precisa descansar, a cada 200 metros a 300 metros. Criar um mobiliário urbano adequado é importante. A construção de toaletes públicos é outra medida simples. Muitos idosos têm urgência urinária, e não saem de casa porque não encontram esse tipo de equipamento. Não é só a questão financeira, é preciso vontade política. Por aqui há poucas iniciativas. Agora o Estado do Rio Grande do Sul começa a tomar algumas iniciativas nesse sentido. Lá, em parceria com o governo, estamos realizando debates, fóruns para discutir e implantar medidas que melhorem a qualidade de vida do idoso. Existem necessidades comuns, mas cada comunidade tem suas diferenças. Na Região Sul ainda existem muitos idosos vivendo em populações agrícolas e isolados. Os filhos saíram de casa, eles vivem sozinhos em muitas vezes em imóveis que estão se deteriorando, sem poder aquisitivo. O governo convocou mutirões convocando idosos mais ativos, recém aposentados, como bombeiros, pedreiros e eletricistas, para reformarem essas casas, a partir de algum incentivo financeiro.
O que é melhor para idoso, ser cuidado em casa ou numa instituição?
KALACHE - Hoje ocorre a feminização do envelhecimento. Na faixa a partir dos 85 anos, dois terços da população é formada por mulheres, geralmente de baixa renda e há muito tempo viúvas. Muitas se casaram com homens mais velhos. A responsabilidade de cuidar de outro idoso geralmente é da mulher. O homem ainda participa pouco. Na faixa de 18 anos a 30 anos, a mulher é principal cuidadora de algum doente dentro de casa e dedica, em média, 18 minutos por dia do seu tempo nessa tarefa. Na faixa de 45 anos a 54 anos, ela gasta 150 minutos. De 65 anos a 74 anos, dedica 210 minutos do seu tempo. De 75 anos a 84 anos o tempo gasto é 310 minutos. Geralmente cuidam dos maridos ou dos próprios pais. Mesmo depois de 85 anos a mulher ainda passa 63 minutos em média cuidando de alguém, mais de três vezes a média das mais jovens. De maneira geral, a pessoa idosa quer envelhecer em casa, não quer ser institucionalizada, por melhor que seja a casa da repouso. É preciso repensar a sociedade para o homem ter participação mais ativa no cuidado, compartilhar mais. E que de alguma forma o poder público ajude para para que as pessoas possam envelhecer em casa. Isso depende também de investimento em atenção primária. Estudo em 2002 na Espanha, mostrou que apenas 12% das pessoas que cuidavam de idosos eram profissionais especializados. No Brasil ainda existe a figura da empregada doméstica, que também atua como cuidadora. Quase 90% eram familiares, amigos, vizinhos. Há estudos similares na Europa e nos Estados Unidos. Não há nenhum país do mundo com mais de 6% de idosos vivendo em instituições. Para a imensa maioria dos idosos, a institucionalização é o começo do fim, a pessoa fica deprimida, está mais sujeita a abusos, perde sua privacidade e sua autonomia para viver de acordo com suas próprias regras e os seus desejos. Mesmo lúcida ela não tem mais autonomia. Terá que seguir regras das instituição, comer na hora determinada, dividir um quarto, usar banheiro coletivo. São raros os lugares bons.
De que forma os avanços em medicina genética estão melhorando a qualidade de vida dos idosos?
KALACHE - Provavelmente, com os avanços científicos, como a medicina genética, as pessoas vão chegar mais facilmente aos 100 anos e com melhor qualidade de vida. Em vez de tratar, a pessoas será curada de doenças crônicas como Parkinson e Alzheimer. Mas para algumas pessoas esse aumento da expectativa de vida será uma perversidade porque continuarão com má qualidade de vida. Por isso estamos buscando intervenções que possam facilitar que a pessoa continue ativa e produtiva. De qualquer forma, envelhecer hoje é muito mais fácil do que há 40 anos a 50 anos. Mas não podemos esperar soluções de fora, temos que desenvolver nossas próprias. É preciso dar mais ênfase em direitos de idosos.
Antônio Marinho - O Globo
RIO - Em menos de 20 anos, o Brasil terá 18 milhões de idosos. Em 2025 serão 32 milhões. Apesar de a expectativa de vida ter aumentado, ainda há muito a fazer. Responsável durante 12 anos por programas de envelhecimento da Organização Mundial de Saúde (OMS), o doutor em saúde pública Alexandre Kalache, fundador do Departamento de Epidemiologia do Envelhecimento da London School of Hygiene and Tropical Medicine e consultor sênior da Academia de Medicina de Nova York, diz o que pode ser feito para melhorar a qualidade de vida na terceira idade. Ele está no Brasil para participar do 13º Congresso Internacional da Associação Brasileira de Medicina de Grupo (Abramge) e defende o investimento em atenção primária e em práticas que levem ao que chama de "envelhecimento ativo".
O brasileiro está envelhecendo com melhor qualidade de vida?
KALACHE - Se compararmos com o envelhecimento do meu avô a diferença é enorme. Primeiro porque a expectativa de vida é mais alta. Quando nasci em 1945, em Copacabana, a esperança de vida de um brasileiro era de 43 anos. Hoje é de 73 anos, quase 74 anos. Só no meu tempo de vida ganhamos 30 anos. Isso é um recorde. Poucos países conseguiram este salto num período tão curto. Eu nasci numa maternidade (a Arnaldo de Moraes) que não existe mais. O mesmo prédio se tornou virtualmente um hospital geriátrico. Copacabana é um exemplo excelente do que está acontecendo e acontecerá no país. Hoje temos mais idosos proporcionalmente neste bairro do que na Suécia e no Japão. Isso tem muito a ver com a urbanização do bairro. Por um lado, os idosos que têm acesso ou dinheiro hoje contam com facilidades que antes não sonhavam, como serviços de saúde e avanços tecnológicos que no meu tempo de estudante de medicina, no final da década de 60, eram ficção científica, mesmo um marcapasso ou a cirurgia aberta de coração, ou um tratamento catarata. E ainda as drogas para controlar diabetes, hipertensão, problemas cardiovasculares; a evolução do tratamento de câncer. Tudo isso melhorou a qualidade de vida. Idosos que antes seriam incapacitados, hoje convivem com problemas crônicos. Porém, o envelhecimento no Brasil ainda é um reflexo do que acontece no país. Há muita desigualdade. Por exemplo, decidir fazer dieta saudável não depende apenas de acesso à informação, mas também de poder aquisitivo. Mesmo em Copacabana isso fica evidente. De um lado idosos em comunidades carentes e do outro idosos de classe média. O primeiro grupo está envelhecendo pior, sem acesso ao sistema de saúde e sem vida social.
O Brasil envelheceu antes de enriquecer. Até que ponto isso foi ruim?
KALACHE - Um aspecto positivo é a aposentadoria não contributiva, de grande interesse internacional, que está tirando da miséria mais de oito milhões de beneficiários e cerca de quatro vezes esse número quando somamos seus familiares. São mais de dois mil municípios que têm hoje suas economias gravitando em torno dessas pensões. E esta política é viável e economicamente possível e difundida. São pessoas que trabalharam a vida toda e não contribuíram para o seguro social, como donas de casa, trabalhadores rurais etc. Pela primeira vez contam com uma renda regular todo mês. Se o Brasil não tivesse nos anos mais recentes experimentado um desenvolvimento econômico, isso talvez ficasse insustentável. E isso pesa muito menos para a economia do que a pensão de funcionários públicos que geralmente se aposentam cedo e com valores mais altos.
Os profissionais de saúde estão preparados para lidar com a terceira idade?
KALACHE - São absolutamente despreparados para lidar com idosos. Não vamos conseguir oferecer serviço geriátrico para 18 milhões de idosos. Primeiro, não é a resposta, não queremos tornar o envelhecimento um problema médico. Mas precisamos treinar todos os profissionais de saúde para lidar melhor com essa população. Geralmente eles sabem tudo de criança, de gestante, mas não sabem nada sobre terceira idade. E é a maioria de seus pacientes. Eles saem das faculdades sem adquirir conhecimentos para lidar com os idosos. A grande resposta para o envelhecimento é a atenção primária na saúde, para evitar a hospitalização e a institucionalização, opções muito mais caras. É preciso atender nossos idosos onde eles vivem, com seu problemas. Trabalhamos com a Associação Internacional de Gerontologia e definimos os 15 pontos capitais para o currículo mínimo do médico. O que ele deve aprender hoje para responder ao envelhecimento. Em 2025, serão 32 milhões com mais de 60 anos no Brasil, em 2050, serão 70 milhões. O acidente vascular cerebral ou derrame é um desgraça no Brasil, que tem um dos maiores índices do mundo. E que poderia ser prevenido como medidas simples como redução do sal na dieta e prática de atividade física. Mas, por exemplo, o idoso que mora em comunidades mais carentes não tem uma calçada para caminhar. Por outro lado, quando a doença já ocorreu, ele precisa de um lugar adequado para se tratar. E depois do tratamento vai precisar de fisioterapia, acompanhamento. Muitas vezes se torna incapaz e ainda terá de viver 15 anos a 20 anos com esse problema, com má qualidade de vida. Todos os profissionais de saúde deveriam estar mais familiarizados com anatomia, fisiologia, farmacologia, sinais e sintomas de doença na terceira idade. Um infarto em pessoa mais jovem causa dor. Já num idoso isso nem sempre ocorre. Outra doença comum é a depressão, que muitas vezes é confundida com mal de Alzheimer e não é tratada.
O Brasil tem um excelente Estatuto do Idoso no papel, mas na prática ainda não funciona? O que pode ser feito?
KALACHE - Já melhorou muito. Há dez anos, falar de envelhecimento não estava na pauta da mídia. Quando me especializei, na década de 70, eu não conseguia falar com ninguém sobre o assunto. Para melhorar a aplicação do estatuto é preciso sensibilizar as autoridades, os políticos. Eles querem dar prioridade a ações mais imediatas, como inaugurar uma ponte. Os políticos e dirigentes ainda não se deram conta da urgência do tema. Porém, o envelhecimento é um desafio de hoje, temos que andar rapidamente. Por exemplo, estamos tentando criar o Centro Internacional de Envelhecimento no Brasil, mas há mais dificuldades do que havia previsto. O principal objetivo do centro seria estimular políticas sustentáveis para o envelhecimento ativo. É o processo de otimizar as oportunidades de saúde, participação e segurança para que o cidadão tenha melhor qualidade de vida à medida que envelhece. É um processo, é continuo. E essas oportunidades estão ao longo da vida. Na saúde, o que se faz hoje, na infância, na adolescência, terá repercussão importante aos 78 anos. A saúde é a chave para participar ativamente da sociedade. Outra questão é a segurança para viver bem na velhice. A proposta do centro é estimular o debate com profissionaisde todas as áreas, não apenas saúde, mas arquitetos, advogados etc, realizar pesquisas e elaborar políticas públicas que poderão trazer o Brasil para o mesmo grau de evolução de países da Europa e dos Estados Unidos. E ele não será vinculado a uma única instituição. A idéia é fazer parcerias com profissionais que se dedicam à essa área, como a Universidade Aberta da Terceira Idade (Unati, Uerj), UFRJ e Universidade Cândido Mendes, e no exterior, como The New York Academy of Medicine, para citar alguns exemplos.
O que aconteceu com o programa Sociedade Amiga do Idoso, da Organização Mundial de Saúde (OMS), que teve como piloto o bairro de Copacabana e serve de modelo para outras cidades do mundo?
KALACHE - O programa está lento, mas existem intervenções pontuais. Copacabana serviu como piloto e foi aqui que desenvolvemos a metodologia adotada em 35 cidades para o projeto global cidade amiga do idoso. Isso é realidade e partiu daqui. Depois repetimos a pesquisa entrevistando idosos de Tóquio, Xangai, Londres, Melbourne, Nova York e outras cidades. Analisamos os relatórios e os dados foram usados para produzir um guia, lançado em 1º de outubro de 2007. E teve um grande impacto. Agora são centenas de cidades e nova reunião será realizada em setembro, em Montreal. Apesar de ter nascido em Copacabana, pouco foi feito aqui. O tema transporte é um dos mais importantes para esta população. No Brasil os ônibus brasileiros são feitos em chassi, com degraus altos. Em Nova York o sistema está sendo todo reformulado. Já existem ônibus nos quais o chassi inteiro desce, não apenas um degrau. O que é bom para o idoso é bom para todos. Eu entro mais facilmente com um embrulho, a mulher com bebê, a pessoa com necessidade, o gordo. Uma boa política de envelhecimento é uma boa política de transporte público. O idoso poderá socializar mais. Outra questão: o idoso gosta de caminhar, de andar, mas também precisa descansar, a cada 200 metros a 300 metros. Criar um mobiliário urbano adequado é importante. A construção de toaletes públicos é outra medida simples. Muitos idosos têm urgência urinária, e não saem de casa porque não encontram esse tipo de equipamento. Não é só a questão financeira, é preciso vontade política. Por aqui há poucas iniciativas. Agora o Estado do Rio Grande do Sul começa a tomar algumas iniciativas nesse sentido. Lá, em parceria com o governo, estamos realizando debates, fóruns para discutir e implantar medidas que melhorem a qualidade de vida do idoso. Existem necessidades comuns, mas cada comunidade tem suas diferenças. Na Região Sul ainda existem muitos idosos vivendo em populações agrícolas e isolados. Os filhos saíram de casa, eles vivem sozinhos em muitas vezes em imóveis que estão se deteriorando, sem poder aquisitivo. O governo convocou mutirões convocando idosos mais ativos, recém aposentados, como bombeiros, pedreiros e eletricistas, para reformarem essas casas, a partir de algum incentivo financeiro.
O que é melhor para idoso, ser cuidado em casa ou numa instituição?
KALACHE - Hoje ocorre a feminização do envelhecimento. Na faixa a partir dos 85 anos, dois terços da população é formada por mulheres, geralmente de baixa renda e há muito tempo viúvas. Muitas se casaram com homens mais velhos. A responsabilidade de cuidar de outro idoso geralmente é da mulher. O homem ainda participa pouco. Na faixa de 18 anos a 30 anos, a mulher é principal cuidadora de algum doente dentro de casa e dedica, em média, 18 minutos por dia do seu tempo nessa tarefa. Na faixa de 45 anos a 54 anos, ela gasta 150 minutos. De 65 anos a 74 anos, dedica 210 minutos do seu tempo. De 75 anos a 84 anos o tempo gasto é 310 minutos. Geralmente cuidam dos maridos ou dos próprios pais. Mesmo depois de 85 anos a mulher ainda passa 63 minutos em média cuidando de alguém, mais de três vezes a média das mais jovens. De maneira geral, a pessoa idosa quer envelhecer em casa, não quer ser institucionalizada, por melhor que seja a casa da repouso. É preciso repensar a sociedade para o homem ter participação mais ativa no cuidado, compartilhar mais. E que de alguma forma o poder público ajude para para que as pessoas possam envelhecer em casa. Isso depende também de investimento em atenção primária. Estudo em 2002 na Espanha, mostrou que apenas 12% das pessoas que cuidavam de idosos eram profissionais especializados. No Brasil ainda existe a figura da empregada doméstica, que também atua como cuidadora. Quase 90% eram familiares, amigos, vizinhos. Há estudos similares na Europa e nos Estados Unidos. Não há nenhum país do mundo com mais de 6% de idosos vivendo em instituições. Para a imensa maioria dos idosos, a institucionalização é o começo do fim, a pessoa fica deprimida, está mais sujeita a abusos, perde sua privacidade e sua autonomia para viver de acordo com suas próprias regras e os seus desejos. Mesmo lúcida ela não tem mais autonomia. Terá que seguir regras das instituição, comer na hora determinada, dividir um quarto, usar banheiro coletivo. São raros os lugares bons.
De que forma os avanços em medicina genética estão melhorando a qualidade de vida dos idosos?
KALACHE - Provavelmente, com os avanços científicos, como a medicina genética, as pessoas vão chegar mais facilmente aos 100 anos e com melhor qualidade de vida. Em vez de tratar, a pessoas será curada de doenças crônicas como Parkinson e Alzheimer. Mas para algumas pessoas esse aumento da expectativa de vida será uma perversidade porque continuarão com má qualidade de vida. Por isso estamos buscando intervenções que possam facilitar que a pessoa continue ativa e produtiva. De qualquer forma, envelhecer hoje é muito mais fácil do que há 40 anos a 50 anos. Mas não podemos esperar soluções de fora, temos que desenvolver nossas próprias. É preciso dar mais ênfase em direitos de idosos.
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Sexo, remédios e...felicidade.
VEJA Edição 2042 - 9 de janeiro de 2008
Entrevista: John P. Mulhall
Para o médico americano, não há nada de errado em um homem recorrer à química para melhorar o desempenho na cama. É bom até
para elas. Basta ter critério
"Uma vida sexual prazerosa traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria"
John P. Mulhall é um dos mais proeminentes urologistas dos Estados Unidos. Além de dirigir o departamento dessa especialidade no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, ele é professor da Weill Medical College of Cornell University, onde coordena o laboratório de pesquisas em medicina sexual. Nessa instituição, Mulhall dedica-se, juntamente com sua equipe, à realização de estudos clínicos para o desenvolvimento de tratamentos de disfunções como impotência e ejaculação precoce. Editor da revista Journal of Urology, seu nome é um dos mais citados nas publicações científicas sobre o tema. Mais de uma centena de artigos é de sua autoria. Nesta entrevista a VEJA, concedida de seu consultório, em Nova York, ele discorre sobre a relevância do sexo na manutenção da qualidade de vida, os distúrbios que afetam homens e mulheres nessa área e a contribuição dos remédios na felicidade geral quando se está na horizontal. "É uma pena que, apesar de todos os avanços obtidos, ainda haja muitos médicos e pacientes relutantes em tocar em assuntos relacionados à cama", diz Mulhall.
Veja – É possível ser completamente saudável e feliz sem uma vida sexual regular e satisfatória?
Mulhall – Não. Uma vida sexual prazerosa, em termos quantitativos e qualitativos, traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria. As disfunções sexuais, por sua vez, contribuem para o surgimento de uma série de problemas físicos e psicológicos. Muitos casos de depressão e de dificuldades de relacionamento têm origem nelas. A disfunção erétil, por exemplo, pode ser o prenúncio de doenças como diabetes, esclerose múltipla, Parkinson e doença coronária, entre outras. A qualidade da vida sexual é um termômetro de bem-estar. Tanto que se tornou uma das medidas da qualidade de vida de uma pessoa, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Veja – As pessoas mais velhas têm, hoje, uma vida sexual mais ativa?
Mulhall – Não gostamos de pensar em nossos pais ou nossos avós fazendo sexo, mas eles estão. Nos Estados Unidos, temos os chamados baby boomers, a geração pós-guerra que freqüentou a universidade nos anos 60. Esses homens e mulheres eram extremamente ativos do ponto de vista sexual na juventude e, de certa forma, continuam assim na velhice. Estima-se que cerca de 70% dos homens na faixa dos 70 anos pratiquem sexo e que 40% deles o façam pelo menos uma vez por semana. Os números estão num estudo publicado recentemente na revista The New England Journal of Medicine. Se esses homens tomam remédios para ter um melhor desempenho físico ao subir escadas, por que não lhes dar um medicamento capaz de proporcionar-lhes a melhor ereção possível? A principal reclamação deles é em relação à rigidez do pênis. Sem dúvida, os remédios antiimpotência os têm ajudado bastante a melhorar esse ponto.
Veja – Como está, em geral, o nível de satisfação de homens e mulheres com o sexo?
Mulhall – Baixo. Uma pesquisa da qual participei mostrou que boa parte das pessoas não está satisfeita com sua vida sexual. Para ser mais exato, um terço dos homens e um quarto das mulheres afirmaram fazer menos sexo do que gostariam. Esse dado se confirmou em um estudo mundial intitulado Global Better Sex Study, apresentado no Congresso Europeu de Urologia, no ano passado. Foram recolhidas informações de 12 500 pessoas, das quais a metade tinha mais de 40 anos. Além de muita gente reclamar de pouco sexo, no quesito rigidez da ereção apenas 38% dos homens disseram estar completamente satisfeitos com o seu desempenho e somente 36% das mulheres expressaram contentamento com a performance de seus parceiros.
Veja – Como o senhor interpreta esses resultados?
Mulhall – Não acho que os homens maduros queiram voltar a ter 18 anos. Mas, para eles, a qualidade da ereção imediatamente anterior é vital. Se, no último encontro amoroso, seu desempenho não foi assim tão bom, voltar à cama com uma mulher tende a transformar-se em fonte de preocupação – e, não raro, isso se traduz em frustração para ambos os lados. Um dos principais motivos que levam os homens a usar Viagra refere-se à qualidade da ereção, e não à falta dela. Com a idade, eles ainda fazem sexo, mas não com o mesmo entusiasmo de antes. Ou seja, a ereção dura menos e é menos rígida. Embora não haja nenhuma disfunção nisso, é claro que o fato está longe de ser motivo de comemoração. Por esse motivo, acho absolutamente legítimo recorrer a um remédio antiimpotência.
Veja – O senhor acha certo os jovens recorrerem a tais medicamentos somente para melhorar um desempenho que já é bom o suficiente?
Mulhall – Há vários homens na faixa dos 35 anos, completamente saudáveis, que usam remédios no início de um relacionamento, para mostrar às parceiras que são bons amantes. Se isso os torna mais confiantes, nenhum problema. A questão é não criar dependência psicológica. O ideal é que, afastada a insegurança inicial, se abandone o remédio.
Veja – Os homens estão mais preocupados em satisfazer as mulheres na cama?
Mulhall – Não, continuam mais preocupados com eles próprios. Veja, sou apenas um médico e não posso aqui fazer considerações de ordem psicológica. Mas, baseado em minha experiência clínica, noto que esse tipo de comportamento está mais associado à auto-estima masculina do que a relacionamentos menos afetivos. Inclusive porque, hoje, há muitos homens de 65 anos se casando com mulheres de 35 anos ou menos. O que eles querem antes de mais nada? Que a parceira perceba que, apesar da idade, o fogo não se extinguiu. Isso não quer dizer necessariamente que eles não se importam com a sua companheira. Até porque a preocupação com o próprio desempenho, na maioria das vezes, os torna mais aptos a dar mais prazer à mulher.
Veja – A ejaculação precoce ainda é o principal fantasma masculino?
Mulhall – Essa é a disfunção sexual mais comum entre homens de todas as idades – e, até o momento, as opções terapêuticas contra o problema são limitadas. Atualmente, os antidepressivos são o que há de mais efetivo para combater a ejaculação precoce. Mas, como se trata de uma medicação que deve ser tomada todos os dias, o índice de desistência do tratamento é alto. Além disso, mais da metade dos pacientes que apresentam esse distúrbio se recusa a tomar antidepressivos por causa do estigma associado a eles.
Veja – Não há nada de novo no horizonte?
Mulhall – Está em estudo uma substância chamada dapoxetina. Tecnicamente, trata-se de um inibidor do transporte de serotonina. Em vez de atuar nos receptores de serotonina no cérebro, como fazem os antidepressivos mais modernos, a dapoxetina atua num estágio anterior a esse processo, inibindo a proteína responsável pelo transporte do neurotransmissor. Se aprovado, o medicamento poderá ser tomado de uma a três horas antes do sexo – e sem o estigma de ser um antidepressivo.
Veja – Afinal de contas, a ejaculação precoce é um distúrbio de ordem fisiológica ou psicológica?
Mulhall – De acordo com as estimativas da Associação Americana de Urologia, de 20% a 34% dos homens de todas as idades sofrem de ejaculação precoce. É preciso, no entanto, separá-los em dois grupos. Há aqueles que sempre foram ejaculadores prematuros – dois terços – e os que adquiriram o distúrbio – o terço restante. Sabe-se que, no primeiro caso, há uma disfunção neurobiológica por trás da ejaculação precoce. Assim como na depressão, ocorre uma falha na comunicação dos neurotransmissores dopamina e serotonina. Entre os homens que adquiriram o distúrbio, a causa mais comum é a disfunção erétil. Dois terços dos que apresentam disfunção erétil vão desenvolver ejaculação precoce. Mas, ao contrário dos outros, esses são inteiramente curáveis. Uma vez tratada a disfunção erétil, o problema de ejaculação precoce desaparece.
Veja – De acordo com um estudo recente publicado no Journal of Sexual Medicine, os precoces levam 1,8 minuto ou menos para ejacular. A média entre os normais gira em torno de sete minutos. É correto estipular um tempo-padrão para a ejaculação?
Mulhall – Na verdade, esses números vieram de uma pesquisa feita por um grande laboratório que se baseou unicamente no que relatavam seus entrevistados. Era uma auto-avaliação, e não uma medição do tempo de fato. Aliás, essa auto-avaliação varia de país para país. Os alemães são os que afirmam ejacular em menos tempo e os sul-americanos, em mais tempo. Homens de certos países da América do Sul dizem levar até treze minutos. O dado interessante é que as respostas nunca batem com as das parceiras. Em qualquer latitude, eles tendem a superestimar o tempo entre o início da relação e a ejaculação.
Veja – A psicóloga americana Leonore Tiefer é uma crítica de longa data da medicalização da sexualidade. Para ela, a dor durante o ato sexual é a única disfunção que realmente existe. O que o senhor acha dessa opinião?
Mulhall – Acho Leonore muito inteligente. Mas ela tem uma relação demasiadamente atritada com a indústria farmacêutica. Leonore defende a tese de que as disfunções sexuais, em especial as femininas, são uma invenção dos fabricantes para vender remédios. A realidade, no entanto, é que não mais do que 20% das mulheres com problemas sexuais são candidatas a medicação. As outras 80% deveriam ser encaminhadas para algum tipo de terapia psicológica ou aconselhamento de casais.
Veja – Isso significa que as mulheres têm menos disfunções sexuais?
Mulhall – Depende de como se encara a questão. Há mulheres que, por exemplo, não têm boa lubrificação vaginal. Trata-se de uma disfunção ou de um fato biológico natural para uma mulher madura? Eu diria que, se o problema é motivo de estresse, então se transforma numa disfunção. Se não importa tanto, não é uma disfunção. Mas, no que se refere aos homens, a falta de ereção é determinante. Não há como não se incomodar com essa questão – e dificilmente dá para resolvê-la por meio de análise. Portanto, não é possível afirmar, como faz Leonore, que o arsenal medicamentoso criado para eles é apenas lixo comercial. O erro dela é se deixar cegar pela aversão que nutre pela indústria farmacêutica.
Entrevista: John P. Mulhall
Para o médico americano, não há nada de errado em um homem recorrer à química para melhorar o desempenho na cama. É bom até
para elas. Basta ter critério
"Uma vida sexual prazerosa traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria"
John P. Mulhall é um dos mais proeminentes urologistas dos Estados Unidos. Além de dirigir o departamento dessa especialidade no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, ele é professor da Weill Medical College of Cornell University, onde coordena o laboratório de pesquisas em medicina sexual. Nessa instituição, Mulhall dedica-se, juntamente com sua equipe, à realização de estudos clínicos para o desenvolvimento de tratamentos de disfunções como impotência e ejaculação precoce. Editor da revista Journal of Urology, seu nome é um dos mais citados nas publicações científicas sobre o tema. Mais de uma centena de artigos é de sua autoria. Nesta entrevista a VEJA, concedida de seu consultório, em Nova York, ele discorre sobre a relevância do sexo na manutenção da qualidade de vida, os distúrbios que afetam homens e mulheres nessa área e a contribuição dos remédios na felicidade geral quando se está na horizontal. "É uma pena que, apesar de todos os avanços obtidos, ainda haja muitos médicos e pacientes relutantes em tocar em assuntos relacionados à cama", diz Mulhall.
Veja – É possível ser completamente saudável e feliz sem uma vida sexual regular e satisfatória?
Mulhall – Não. Uma vida sexual prazerosa, em termos quantitativos e qualitativos, traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria. As disfunções sexuais, por sua vez, contribuem para o surgimento de uma série de problemas físicos e psicológicos. Muitos casos de depressão e de dificuldades de relacionamento têm origem nelas. A disfunção erétil, por exemplo, pode ser o prenúncio de doenças como diabetes, esclerose múltipla, Parkinson e doença coronária, entre outras. A qualidade da vida sexual é um termômetro de bem-estar. Tanto que se tornou uma das medidas da qualidade de vida de uma pessoa, segundo a Organização Mundial de Saúde.
Veja – As pessoas mais velhas têm, hoje, uma vida sexual mais ativa?
Mulhall – Não gostamos de pensar em nossos pais ou nossos avós fazendo sexo, mas eles estão. Nos Estados Unidos, temos os chamados baby boomers, a geração pós-guerra que freqüentou a universidade nos anos 60. Esses homens e mulheres eram extremamente ativos do ponto de vista sexual na juventude e, de certa forma, continuam assim na velhice. Estima-se que cerca de 70% dos homens na faixa dos 70 anos pratiquem sexo e que 40% deles o façam pelo menos uma vez por semana. Os números estão num estudo publicado recentemente na revista The New England Journal of Medicine. Se esses homens tomam remédios para ter um melhor desempenho físico ao subir escadas, por que não lhes dar um medicamento capaz de proporcionar-lhes a melhor ereção possível? A principal reclamação deles é em relação à rigidez do pênis. Sem dúvida, os remédios antiimpotência os têm ajudado bastante a melhorar esse ponto.
Veja – Como está, em geral, o nível de satisfação de homens e mulheres com o sexo?
Mulhall – Baixo. Uma pesquisa da qual participei mostrou que boa parte das pessoas não está satisfeita com sua vida sexual. Para ser mais exato, um terço dos homens e um quarto das mulheres afirmaram fazer menos sexo do que gostariam. Esse dado se confirmou em um estudo mundial intitulado Global Better Sex Study, apresentado no Congresso Europeu de Urologia, no ano passado. Foram recolhidas informações de 12 500 pessoas, das quais a metade tinha mais de 40 anos. Além de muita gente reclamar de pouco sexo, no quesito rigidez da ereção apenas 38% dos homens disseram estar completamente satisfeitos com o seu desempenho e somente 36% das mulheres expressaram contentamento com a performance de seus parceiros.
Veja – Como o senhor interpreta esses resultados?
Mulhall – Não acho que os homens maduros queiram voltar a ter 18 anos. Mas, para eles, a qualidade da ereção imediatamente anterior é vital. Se, no último encontro amoroso, seu desempenho não foi assim tão bom, voltar à cama com uma mulher tende a transformar-se em fonte de preocupação – e, não raro, isso se traduz em frustração para ambos os lados. Um dos principais motivos que levam os homens a usar Viagra refere-se à qualidade da ereção, e não à falta dela. Com a idade, eles ainda fazem sexo, mas não com o mesmo entusiasmo de antes. Ou seja, a ereção dura menos e é menos rígida. Embora não haja nenhuma disfunção nisso, é claro que o fato está longe de ser motivo de comemoração. Por esse motivo, acho absolutamente legítimo recorrer a um remédio antiimpotência.
Veja – O senhor acha certo os jovens recorrerem a tais medicamentos somente para melhorar um desempenho que já é bom o suficiente?
Mulhall – Há vários homens na faixa dos 35 anos, completamente saudáveis, que usam remédios no início de um relacionamento, para mostrar às parceiras que são bons amantes. Se isso os torna mais confiantes, nenhum problema. A questão é não criar dependência psicológica. O ideal é que, afastada a insegurança inicial, se abandone o remédio.
Veja – Os homens estão mais preocupados em satisfazer as mulheres na cama?
Mulhall – Não, continuam mais preocupados com eles próprios. Veja, sou apenas um médico e não posso aqui fazer considerações de ordem psicológica. Mas, baseado em minha experiência clínica, noto que esse tipo de comportamento está mais associado à auto-estima masculina do que a relacionamentos menos afetivos. Inclusive porque, hoje, há muitos homens de 65 anos se casando com mulheres de 35 anos ou menos. O que eles querem antes de mais nada? Que a parceira perceba que, apesar da idade, o fogo não se extinguiu. Isso não quer dizer necessariamente que eles não se importam com a sua companheira. Até porque a preocupação com o próprio desempenho, na maioria das vezes, os torna mais aptos a dar mais prazer à mulher.
Veja – A ejaculação precoce ainda é o principal fantasma masculino?
Mulhall – Essa é a disfunção sexual mais comum entre homens de todas as idades – e, até o momento, as opções terapêuticas contra o problema são limitadas. Atualmente, os antidepressivos são o que há de mais efetivo para combater a ejaculação precoce. Mas, como se trata de uma medicação que deve ser tomada todos os dias, o índice de desistência do tratamento é alto. Além disso, mais da metade dos pacientes que apresentam esse distúrbio se recusa a tomar antidepressivos por causa do estigma associado a eles.
Veja – Não há nada de novo no horizonte?
Mulhall – Está em estudo uma substância chamada dapoxetina. Tecnicamente, trata-se de um inibidor do transporte de serotonina. Em vez de atuar nos receptores de serotonina no cérebro, como fazem os antidepressivos mais modernos, a dapoxetina atua num estágio anterior a esse processo, inibindo a proteína responsável pelo transporte do neurotransmissor. Se aprovado, o medicamento poderá ser tomado de uma a três horas antes do sexo – e sem o estigma de ser um antidepressivo.
Veja – Afinal de contas, a ejaculação precoce é um distúrbio de ordem fisiológica ou psicológica?
Mulhall – De acordo com as estimativas da Associação Americana de Urologia, de 20% a 34% dos homens de todas as idades sofrem de ejaculação precoce. É preciso, no entanto, separá-los em dois grupos. Há aqueles que sempre foram ejaculadores prematuros – dois terços – e os que adquiriram o distúrbio – o terço restante. Sabe-se que, no primeiro caso, há uma disfunção neurobiológica por trás da ejaculação precoce. Assim como na depressão, ocorre uma falha na comunicação dos neurotransmissores dopamina e serotonina. Entre os homens que adquiriram o distúrbio, a causa mais comum é a disfunção erétil. Dois terços dos que apresentam disfunção erétil vão desenvolver ejaculação precoce. Mas, ao contrário dos outros, esses são inteiramente curáveis. Uma vez tratada a disfunção erétil, o problema de ejaculação precoce desaparece.
Veja – De acordo com um estudo recente publicado no Journal of Sexual Medicine, os precoces levam 1,8 minuto ou menos para ejacular. A média entre os normais gira em torno de sete minutos. É correto estipular um tempo-padrão para a ejaculação?
Mulhall – Na verdade, esses números vieram de uma pesquisa feita por um grande laboratório que se baseou unicamente no que relatavam seus entrevistados. Era uma auto-avaliação, e não uma medição do tempo de fato. Aliás, essa auto-avaliação varia de país para país. Os alemães são os que afirmam ejacular em menos tempo e os sul-americanos, em mais tempo. Homens de certos países da América do Sul dizem levar até treze minutos. O dado interessante é que as respostas nunca batem com as das parceiras. Em qualquer latitude, eles tendem a superestimar o tempo entre o início da relação e a ejaculação.
Veja – A psicóloga americana Leonore Tiefer é uma crítica de longa data da medicalização da sexualidade. Para ela, a dor durante o ato sexual é a única disfunção que realmente existe. O que o senhor acha dessa opinião?
Mulhall – Acho Leonore muito inteligente. Mas ela tem uma relação demasiadamente atritada com a indústria farmacêutica. Leonore defende a tese de que as disfunções sexuais, em especial as femininas, são uma invenção dos fabricantes para vender remédios. A realidade, no entanto, é que não mais do que 20% das mulheres com problemas sexuais são candidatas a medicação. As outras 80% deveriam ser encaminhadas para algum tipo de terapia psicológica ou aconselhamento de casais.
Veja – Isso significa que as mulheres têm menos disfunções sexuais?
Mulhall – Depende de como se encara a questão. Há mulheres que, por exemplo, não têm boa lubrificação vaginal. Trata-se de uma disfunção ou de um fato biológico natural para uma mulher madura? Eu diria que, se o problema é motivo de estresse, então se transforma numa disfunção. Se não importa tanto, não é uma disfunção. Mas, no que se refere aos homens, a falta de ereção é determinante. Não há como não se incomodar com essa questão – e dificilmente dá para resolvê-la por meio de análise. Portanto, não é possível afirmar, como faz Leonore, que o arsenal medicamentoso criado para eles é apenas lixo comercial. O erro dela é se deixar cegar pela aversão que nutre pela indústria farmacêutica.
5 de setembro de 2008
"Viagra mudou a forma como falamos de sexo", afirma farmacêutico que inventou a droga.
Publicada em 05/09/2008 às 11h24m
Maria Vianna - O Globo Online*
m
Quando foi contratado por um grande laboratório há 27 anos, o farmacêutico inglês Peter Ellis não sonhava em ser uma das principais peças do que muitos especialistas em sexualidade chamam de "nova revolução sexual". Conhecido como o pai do Viagra por ter coordenado o estudo que descobriu a droga, Ellis se tornou uma espécie de consultor sexual de amigos, de desconhecidos e até de celebridades. Descoberto por acaso, o medicamento tinha sido elaborado para tratar de angina e hipertensão, mas passou a ser pesquisado para impotência quando pacientes envolvidos no estudo começaram a relatar, felizes, o inesperado efeito colateral. Em visita a São Paulo, Peter Ellis conversou com o GLOBO ONLINE sobre a droga que hoje chama de 'diamante azul'. Para os mais curiosos: sim, o farmacêutico já testou e aprovou sua criação. "Já fui abordado por celebridades em jantares sofisticados, por desconhecidos na rua, todos acreditando que eu tenho a resposta para todo tipo de problema de ereção. "
Maria Vianna - O Globo Online*
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Quando foi contratado por um grande laboratório há 27 anos, o farmacêutico inglês Peter Ellis não sonhava em ser uma das principais peças do que muitos especialistas em sexualidade chamam de "nova revolução sexual". Conhecido como o pai do Viagra por ter coordenado o estudo que descobriu a droga, Ellis se tornou uma espécie de consultor sexual de amigos, de desconhecidos e até de celebridades. Descoberto por acaso, o medicamento tinha sido elaborado para tratar de angina e hipertensão, mas passou a ser pesquisado para impotência quando pacientes envolvidos no estudo começaram a relatar, felizes, o inesperado efeito colateral. Em visita a São Paulo, Peter Ellis conversou com o GLOBO ONLINE sobre a droga que hoje chama de 'diamante azul'. Para os mais curiosos: sim, o farmacêutico já testou e aprovou sua criação. "Já fui abordado por celebridades em jantares sofisticados, por desconhecidos na rua, todos acreditando que eu tenho a resposta para todo tipo de problema de ereção. "
m
O que mudou na sua vida depois desta descoberta?
Sinto muita satisfação e orgulho de ter feito parte da equipe que desenvolveu um medicamento que se tornou símbolo de toda uma transformação na forma como as pessoas encaram o sexo, e fico realmente muito feliz de ver quantos já foram beneficiados e estão mais satisfeitos sexualmente e psicologicamente por causa desta invenção. Só para se ter uma idéia, hoje seis compridos de Viagra são consumidos mundialmente a cada segundo. Um fato interessante foi que, quando comecei a pesquisar a droga para a disfunção erétil, descobri que muitos dos meus amigos sofriam do problema. Era algo que eu realmente não queria saber, mas que também foi fundamental para percebermos o quanto a droga era necessária. Já fui abordado por celebridades em jantares sofisticados, por desconhecidos na rua, todos acreditando que eu tenho a resposta para todo tipo de problema de ereção. E, claro, já recebi incontáveis agradecimentos de esposas satisfeitas e casais que redescobriram a vida a dois.
O que mudou na sua vida depois desta descoberta?
Sinto muita satisfação e orgulho de ter feito parte da equipe que desenvolveu um medicamento que se tornou símbolo de toda uma transformação na forma como as pessoas encaram o sexo, e fico realmente muito feliz de ver quantos já foram beneficiados e estão mais satisfeitos sexualmente e psicologicamente por causa desta invenção. Só para se ter uma idéia, hoje seis compridos de Viagra são consumidos mundialmente a cada segundo. Um fato interessante foi que, quando comecei a pesquisar a droga para a disfunção erétil, descobri que muitos dos meus amigos sofriam do problema. Era algo que eu realmente não queria saber, mas que também foi fundamental para percebermos o quanto a droga era necessária. Já fui abordado por celebridades em jantares sofisticados, por desconhecidos na rua, todos acreditando que eu tenho a resposta para todo tipo de problema de ereção. E, claro, já recebi incontáveis agradecimentos de esposas satisfeitas e casais que redescobriram a vida a dois.
m
Quando vamos ver um medicamento deste tipo para mulheres?
Há anos que a comunidade cientifica trabalha para criar medicamentos eficazes que tratem as disfunções sexuais femininas, mas sem muito sucesso. O que sabemos é que não temos como criar um "Viagra feminino" ou uma droga que tenha mecanismo similar, temos que criar um remédio novo. A manifestação do desejo e da excitação nas mulheres é diferente da dos homens. As mulheres têm, de fato, um mecanismo sexual muito mais complicado que o masculino. Elas podem se excitar, ficar lubrificadas e nunca atingir o orgasmo. Para a ciência, isto ainda é um desafio. Todos sabem que o Viagra já foi testado em mulheres e não se mostrou eficaz. A droga de fato aumenta o fluxo sangüíneo na região genital delas, mas o efeito, em termos de aumento de prazer, é praticamente nulo. Mulheres que tomam o medicamento e que dizem sentir mais prazer experimentam, na verdade, um efeito placebo. Mas a ciência ainda está longe de desenvolver uma droga que facilite ou aumente orgasmos femininos.
Quando vamos ver um medicamento deste tipo para mulheres?
Há anos que a comunidade cientifica trabalha para criar medicamentos eficazes que tratem as disfunções sexuais femininas, mas sem muito sucesso. O que sabemos é que não temos como criar um "Viagra feminino" ou uma droga que tenha mecanismo similar, temos que criar um remédio novo. A manifestação do desejo e da excitação nas mulheres é diferente da dos homens. As mulheres têm, de fato, um mecanismo sexual muito mais complicado que o masculino. Elas podem se excitar, ficar lubrificadas e nunca atingir o orgasmo. Para a ciência, isto ainda é um desafio. Todos sabem que o Viagra já foi testado em mulheres e não se mostrou eficaz. A droga de fato aumenta o fluxo sangüíneo na região genital delas, mas o efeito, em termos de aumento de prazer, é praticamente nulo. Mulheres que tomam o medicamento e que dizem sentir mais prazer experimentam, na verdade, um efeito placebo. Mas a ciência ainda está longe de desenvolver uma droga que facilite ou aumente orgasmos femininos.
k
A droga está sempre em fase de testes para outras doenças. Por quê?
O mecanismo do medicamento, que foi inicialmente criado com outro objetivo, age como relaxante do sistema vascular e também bloqueia a ação de uma molécula que está ligada a outras condições físicas. A droga foi testada com sucesso em mulheres que têm um tipo de infertilidade causada pelo afinamento da parede uterina, mas foi reprovada em experimentos com mulheres grávidas com eclâmpsia. Alguns distúrbios pulmonares e neuropáticos também já foram tratados com certo resultado. Porém, não é tão eficaz no tratamento da depressão, principalmente em mulheres. Na ciência testam de tudo, já misturaram Viagra com água para ver se as plantas duravam mais tempo no vaso!
A droga está sempre em fase de testes para outras doenças. Por quê?
O mecanismo do medicamento, que foi inicialmente criado com outro objetivo, age como relaxante do sistema vascular e também bloqueia a ação de uma molécula que está ligada a outras condições físicas. A droga foi testada com sucesso em mulheres que têm um tipo de infertilidade causada pelo afinamento da parede uterina, mas foi reprovada em experimentos com mulheres grávidas com eclâmpsia. Alguns distúrbios pulmonares e neuropáticos também já foram tratados com certo resultado. Porém, não é tão eficaz no tratamento da depressão, principalmente em mulheres. Na ciência testam de tudo, já misturaram Viagra com água para ver se as plantas duravam mais tempo no vaso!
m
Como vê o uso recreativo da droga, principalmente por jovens?
Dizer que homens mais novos não têm problemas de ereção é uma avaliação equivocada. A disfunção erétil atinge todas as faixas etárias, mas na juventude ela está mais associada a problemas psicológicos, falta de confiança e pressão por ter uma boa performance na cama. Ainda existe um preconceito em torno da disfunção erétil, principalmente na juventude. A impotência ainda é um tema pouco discutido e muitos médicos ainda têm dificuldade de abordar a questão. Sou totalmente contra a auto medicação, mas também acredito na segurança do produto e não acho que ele traga riscos para a saúde.
Dizer que homens mais novos não têm problemas de ereção é uma avaliação equivocada. A disfunção erétil atinge todas as faixas etárias, mas na juventude ela está mais associada a problemas psicológicos, falta de confiança e pressão por ter uma boa performance na cama. Ainda existe um preconceito em torno da disfunção erétil, principalmente na juventude. A impotência ainda é um tema pouco discutido e muitos médicos ainda têm dificuldade de abordar a questão. Sou totalmente contra a auto medicação, mas também acredito na segurança do produto e não acho que ele traga riscos para a saúde.
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NOSSA OPINIÃO:
M
O uso recreativo, indiscriminado e totalmente sem controle do sildenafil e outros inibidores da enzima fosfodiesterase-5, certamente é a maior fonte de renda dos laboratórios que os fabricam. O que se vê na prática, é que a ênfase e a determinação em se combater esse comércio de alto risco é ZERO. Percebe-se claramente que para esses laboratórios não importa se a venda foi por um motivo justo ou para uso recreativo. Haja vista a facilidade com que essas drogas são adquiridas em balcões de farmácia, como se fossem balinhas de hortelã. O risco é sempre do paciente, que pode ou não ter o benefício dos seus efeitos. Já os seus fabricantes não correm riscos, uma vez que apenas seguem a lei vigente regida por legisladores e médicos patrocinados. E lucram milhões e milhões de dólares as custas de "hipotéticos" portadores de disfunção sexual.
n
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19 de maio de 2008
Sexo, remédios e........felicidade. - John P. Mullhall
Para o médico americano, não há nada de errado em um homem recorrer à química para melhorar o desempenho na cama. É bom até para elas. Basta ter critério
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"Uma vida sexual prazerosa traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria".
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"Uma vida sexual prazerosa traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria".
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John P. Mulhall é um dos mais proeminentes urologistas dos Estados Unidos. Além de dirigir o departamento dessa especialidade no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, ele é professor da Weill Medical College of Cornell University, onde coordena o laboratório de pesquisas em medicina sexual. Nessa instituição, Mulhall dedica-se, juntamente com sua equipe, à realização de estudos clínicos para o desenvolvimento de tratamentos de disfunções como impotência e ejaculação precoce. Editor da revista Journal of Urology, seu nome é um dos mais citados nas publicações científicas sobre o tema. Mais de uma centena de artigos é de sua autoria. Nesta entrevista a VEJA, concedida de seu consultório, em Nova York, ele discorre sobre a relevância do sexo na manutenção da qualidade de vida, os distúrbios que afetam homens e mulheres nessa área e a contribuição dos remédios na felicidade geral quando se está na horizontal. "É uma pena que, apesar de todos os avanços obtidos, ainda haja muitos médicos e pacientes relutantes em tocar em assuntos relacionados à cama", diz Mulhall.
John P. Mulhall é um dos mais proeminentes urologistas dos Estados Unidos. Além de dirigir o departamento dessa especialidade no Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em Nova York, ele é professor da Weill Medical College of Cornell University, onde coordena o laboratório de pesquisas em medicina sexual. Nessa instituição, Mulhall dedica-se, juntamente com sua equipe, à realização de estudos clínicos para o desenvolvimento de tratamentos de disfunções como impotência e ejaculação precoce. Editor da revista Journal of Urology, seu nome é um dos mais citados nas publicações científicas sobre o tema. Mais de uma centena de artigos é de sua autoria. Nesta entrevista a VEJA, concedida de seu consultório, em Nova York, ele discorre sobre a relevância do sexo na manutenção da qualidade de vida, os distúrbios que afetam homens e mulheres nessa área e a contribuição dos remédios na felicidade geral quando se está na horizontal. "É uma pena que, apesar de todos os avanços obtidos, ainda haja muitos médicos e pacientes relutantes em tocar em assuntos relacionados à cama", diz Mulhall.
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Veja – É possível ser completamente saudável e feliz sem uma vida sexual regular e satisfatória?
Veja – É possível ser completamente saudável e feliz sem uma vida sexual regular e satisfatória?
Mulhall – Não. Uma vida sexual prazerosa, em termos quantitativos e qualitativos, traz uma série de benefícios à saúde mental, cardiovascular e até imunológica. Vive-se mais e com mais alegria. As disfunções sexuais, por sua vez, contribuem para o surgimento de uma série de problemas físicos e psicológicos. Muitos casos de depressão e de dificuldades de relacionamento têm origem nelas. A disfunção erétil, por exemplo, pode ser o prenúncio de doenças como diabetes, esclerose múltipla, Parkinson e doença coronária, entre outras. A qualidade da vida sexual é um termômetro de bem-estar. Tanto que se tornou uma das medidas da qualidade de vida de uma pessoa, segundo a Organização Mundial de Saúde.
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Veja – As pessoas mais velhas têm, hoje, uma vida sexual mais ativa?
Veja – As pessoas mais velhas têm, hoje, uma vida sexual mais ativa?
Mulhall – Não gostamos de pensar em nossos pais ou nossos avós fazendo sexo, mas eles estão. Nos Estados Unidos, temos os chamados baby boomers, a geração pós-guerra que freqüentou a universidade nos anos 60. Esses homens e mulheres eram extremamente ativos do ponto de vista sexual na juventude e, de certa forma, continuam assim na velhice. Estima-se que cerca de 70% dos homens na faixa dos 70 anos pratiquem sexo e que 40% deles o façam pelo menos uma vez por semana. Os números estão num estudo publicado recentemente na revista The New England Journal of Medicine. Se esses homens tomam remédios para ter um melhor desempenho físico ao subir escadas, por que não lhes dar um medicamento capaz de proporcionar-lhes a melhor ereção possível? A principal reclamação deles é em relação à rigidez do pênis. Sem dúvida, os remédios anti-impotência os têm ajudado bastante a melhorar esse ponto.
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Veja – Como está, em geral, o nível de satisfação de homens e mulheres com o sexo?
Veja – Como está, em geral, o nível de satisfação de homens e mulheres com o sexo?
Mulhall – Baixo. Uma pesquisa da qual participei mostrou que boa parte das pessoas não está satisfeita com sua vida sexual. Para ser mais exato, um terço dos homens e um quarto das mulheres afirmaram fazer menos sexo do que gostariam. Esse dado se confirmou em um estudo mundial intitulado Global Better Sex Study, apresentado no Congresso Europeu de Urologia, no ano passado. Foram recolhidas informações de 12 500 pessoas, das quais a metade tinha mais de 40 anos. Além de muita gente reclamar de pouco sexo, no quesito rigidez da ereção apenas 38% dos homens disseram estar completamente satisfeitos com o seu desempenho e somente 36% das mulheres expressaram contentamento com a performance de seus parceiros.
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Veja – Como o senhor interpreta esses resultados?
Veja – Como o senhor interpreta esses resultados?
Mulhall – Não acho que os homens maduros queiram voltar a ter 18 anos. Mas, para eles, a qualidade da ereção imediatamente anterior é vital. Se, no último encontro amoroso, seu desempenho não foi assim tão bom, voltar à cama com uma mulher tende a transformar-se em fonte de preocupação – e, não raro, isso se traduz em frustração para ambos os lados. Um dos principais motivos que levam os homens a usar Viagra refere-se à qualidade da ereção, e não à falta dela. Com a idade, eles ainda fazem sexo, mas não com o mesmo entusiasmo de antes. Ou seja, a ereção dura menos e é menos rígida. Embora não haja nenhuma disfunção nisso, é claro que o fato está longe de ser motivo de comemoração. Por esse motivo, acho absolutamente legítimo recorrer a um remédio anti-impotência.
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Veja – O senhor acha certo os jovens recorrerem a tais medicamentos somente para melhorar um desempenho que já é bom o suficiente?
Veja – O senhor acha certo os jovens recorrerem a tais medicamentos somente para melhorar um desempenho que já é bom o suficiente?
Mulhall – Há vários homens na faixa dos 35 anos, completamente saudáveis, que usam remédios no início de um relacionamento, para mostrar às parceiras que são bons amantes. Se isso os torna mais confiantes, nenhum problema. A questão é não criar dependência psicológica. O ideal é que, afastada a insegurança inicial, se abandone o remédio.
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Veja – Os homens estão mais preocupados em satisfazer as mulheres na cama?
Veja – Os homens estão mais preocupados em satisfazer as mulheres na cama?
Mulhall – Não, continuam mais preocupados com eles próprios. Veja, sou apenas um médico e não posso aqui fazer considerações de ordem psicológica. Mas, baseado em minha experiência clínica, noto que esse tipo de comportamento está mais associado à auto-estima masculina do que a relacionamentos menos afetivos. Inclusive porque, hoje, há muitos homens de 65 anos se casando com mulheres de 35 anos ou menos. O que eles querem antes de mais nada? Que a parceira perceba que, apesar da idade, o fogo não se extinguiu. Isso não quer dizer necessariamente que eles não se importam com a sua companheira. Até porque a preocupação com o próprio desempenho, na maioria das vezes, os torna mais aptos a dar mais prazer à mulher.
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Veja – A ejaculação precoce ainda é o principal fantasma masculino?
Veja – A ejaculação precoce ainda é o principal fantasma masculino?
Mulhall – Essa é a disfunção sexual mais comum entre homens de todas as idades – e, até o momento, as opções terapêuticas contra o problema são limitadas. Atualmente, os antidepressivos são o que há de mais efetivo para combater a ejaculação precoce. Mas, como se trata de uma medicação que deve ser tomada todos os dias, o índice de desistência do tratamento é alto. Além disso, mais da metade dos pacientes que apresentam esse distúrbio se recusa a tomar antidepressivos por causa do estigma associado a eles.
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Veja – Não há nada de novo no horizonte?
Veja – Não há nada de novo no horizonte?
Mulhall – Está em estudo uma substância chamada dapoxetina. Tecnicamente, trata-se de um inibidor do transporte de serotonina. Em vez de atuar nos receptores de serotonina no cérebro, como fazem os antidepressivos mais modernos, a dapoxetina atua num estágio anterior a esse processo, inibindo a proteína responsável pelo transporte do neurotransmissor. Se aprovado, o medicamento poderá ser tomado de uma a três horas antes do sexo – e sem o estigma de ser um antidepressivo.
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Veja – Afinal de contas, a ejaculação precoce é um distúrbio de ordem fisiológica ou psicológica?
Veja – Afinal de contas, a ejaculação precoce é um distúrbio de ordem fisiológica ou psicológica?
Mulhall – De acordo com as estimativas da Associação Americana de Urologia, de 20% a 34% dos homens de todas as idades sofrem de ejaculação precoce. É preciso, no entanto, separá-los em dois grupos. Há aqueles que sempre foram ejaculadores prematuros – dois terços – e os que adquiriram o distúrbio – o terço restante. Sabe-se que, no primeiro caso, há uma disfunção neurobiológica por trás da ejaculação precoce. Assim como na depressão, ocorre uma falha na comunicação dos neurotransmissores dopamina e serotonina. Entre os homens que adquiriram o distúrbio, a causa mais comum é a disfunção erétil. Dois terços dos que apresentam disfunção erétil vão desenvolver ejaculação precoce. Mas, ao contrário dos outros, esses são inteiramente curáveis. Uma vez tratada a disfunção erétil, o problema de ejaculação precoce desaparece.
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Veja – De acordo com um estudo recente publicado no Journal of Sexual Medicine, os precoces levam 1,8 minuto ou menos para ejacular. A média entre os normais gira em torno de sete minutos. É correto estipular um tempo-padrão para a ejaculação?
Veja – De acordo com um estudo recente publicado no Journal of Sexual Medicine, os precoces levam 1,8 minuto ou menos para ejacular. A média entre os normais gira em torno de sete minutos. É correto estipular um tempo-padrão para a ejaculação?
Mulhall – Na verdade, esses números vieram de uma pesquisa feita por um grande laboratório que se baseou unicamente no que relatavam seus entrevistados. Era uma auto-avaliação, e não uma medição do tempo de fato. Aliás, essa auto-avaliação varia de país para país. Os alemães são os que afirmam ejacular em menos tempo e os sul-americanos, em mais tempo. Homens de certos países da América do Sul dizem levar até treze minutos. O dado interessante é que as respostas nunca batem com as das parceiras. Em qualquer latitude, eles tendem a superestimar o tempo entre o início da relação e a ejaculação.
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Veja – A psicóloga americana Leonore Tiefer é uma crítica de longa data da medicalização da sexualidade. Para ela, a dor durante o ato sexual é a única disfunção que realmente existe. O que o senhor acha dessa opinião?
Veja – A psicóloga americana Leonore Tiefer é uma crítica de longa data da medicalização da sexualidade. Para ela, a dor durante o ato sexual é a única disfunção que realmente existe. O que o senhor acha dessa opinião?
Mulhall – Acho Leonore muito inteligente. Mas ela tem uma relação demasiadamente atritada com a indústria farmacêutica. Leonore defende a tese de que as disfunções sexuais, em especial as femininas, são uma invenção dos fabricantes para vender remédios. A realidade, no entanto, é que não mais do que 20% das mulheres com problemas sexuais são candidatas a medicação. As outras 80% deveriam ser encaminhadas para algum tipo de terapia psicológica ou aconselhamento de casais.
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Veja – Isso significa que as mulheres têm menos disfunções sexuais?
Veja – Isso significa que as mulheres têm menos disfunções sexuais?
Mulhall – Depende de como se encara a questão. Há mulheres que, por exemplo, não têm boa lubrificação vaginal. Trata-se de uma disfunção ou de um fato biológico natural para uma mulher madura? Eu diria que, se o problema é motivo de estresse, então se transforma numa disfunção. Se não importa tanto, não é uma disfunção. Mas, no que se refere aos homens, a falta de ereção é determinante. Não há como não se incomodar com essa questão – e dificilmente dá para resolvê-la por meio de análise. Portanto, não é possível afirmar, como faz Leonore, que o arsenal medicamentoso criado para eles é apenas lixo comercial. O erro dela é se deixar cegar pela aversão que nutre pela indústria farmacêutica.
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